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Antonio Carlos Ferreira de Melo

lembro de quando você capinava o quintal ao som de Gilberto Gil.  quando ouvia Cazuza, e dizia que ele “escandalizou”. eu lembro lembro que você me ensinou a gostar de ler, sem usar ao menos uma palavra. eu ainda não sabia que a leitura me salvaria  tantas e tantas vezes. lembro que conheci poesia através de você, que adorava recitar seus versos e suas canções. e acredito que eu ame a arte porque você amava a arte. lembro que o amor às palavras veio de dentro de você pra mim, assim como a sua cor, seu nariz e seus olhos. lembro também que tivemos dias tempestuosos, quando eu queria falar mais alto, imaturidade da juventude. lembro das praias que fomos, de momentos bons do passado e do quanto eu achava você inteligente. lembro agora da sua assinatura, das suas piadas sem graça, do quanto você gostava de cantar, da forma como você olhava com orgulho pra todos nós filhos, da sua timidez, dos dias de alegrias entre você e minha mãe e lembro do toque no meu pé quando saía pra traba...

pontos

  os tecidos da vida se conectam ao concreto que por vezes incerto, se faz solidário ao externo mudando o aparente mais uma vez o aspecto agora mudado externa, a ligação com o que somos mas que balança ao menor vento de dúvida  a incerteza traz pensamentos que agem contra a realidade do que somos estabelecendo assim uma constante imposição  de como devemos ser o ser precisa se ligar ao mundo externo, usando o que é  como pilar sendo assim os ventos de incerteza irão pairar mas a certeza de consciência supera a tudo

z

  o brilho dos seus olhos são de paz  lá dentro da alma de cores esquecidas no fundo de um lago sua alma é solar e sente mais se espalha por entre as ondas e se suspende no ar quente da praia seu sorriso é belíssimo e provoca alegria no meu coração  que tanto te vê e te olha seu amor é do jeito que é com todas as variações e coisas inesperadas da forma exata do seu coração 

Animal de estimação

  dos animais não se sabe nada. do focinho, dos olhos, do pelo cada fração de grunhidos, de apelo se sabe pouco ou quase nada. agora do coração, e um caso à parte os desencontros, feridas, desilusões e culpa, tudo se desprende de um arco e acerta como flecha a nuca. da alma se perde um pouco mais quando o assunto, a frieza, a incompreensão e o fardo todos eles unindo em uníssono soam como melodia cantada pelo bardo. amanhã o tempo se abre e os sons, as conversas e as cicatrizes somando-se ao bolo de coisas do agora carrega suas malas de mudança para, do olho, as raízes.

menor de idade

  Às vezes me sinto menor de idade Quando um pensamento, um medo ou uma dor Cruzam minha mente Como um trovão que atinge uma cidade Criancinha mesmo, que chora e esperneia Que não sabe o caminho de casa Que se largada na esquina Grita pela mãe, em frente à escola, por hora e meia Às vezes me sinto pequeno Como pessoas que vivem em folhas de planta Casa de árvore que não se vê ao olho nu Palma da mão com terra molhada de sereno Nem sempre quero ser adulto Fingir que sei tudo o tempo todo Dormir com certeza de afazeres infindáveis Me sentir insatisfeito no pouco e no muito No fim o que resta é um eu em dois momentos Que mesmo completo, olha pro menino do passado Andando na rua mais pulando que correndo Buscando o equilíbrio, conversando com o tempo

13/5

  deita do seu lado esquerdo pra não se machucar se prepara para o mundo pra não se iludir  se acostuma com seus passos tortos pra não se perder enrijece essa carne pra quando a vida bater fecha os olhos pra quando a alma é cansada fecha a boca pra quando a fala é barata guarda aquilo que tua mãe te falou pra não se perder de você sente o céu, o mar, as árvores pra continuar a viver

sono

  assim como as unhas crescem e o verniz da vida cobre tudo lentamente por sobre a pele que começa a ressecar  nesse momento o tempo passa indomável  agora o peito adormece o coração desacelera  desejos de boa noite ouvidos no corredor cada respiro selando um acordo que a vida deste faz parte incessante troca de quadros por segundo que, por agora, acontece com os olhos fechados os desenhos que a mente faz teorias de sabores inúmeros superstição ou realidade? as lentes do adormecer finalmente enxergam o outro dia