Antonio Carlos Ferreira de Melo



lembro de quando você capinava o quintal
ao som de Gilberto Gil. 
quando ouvia Cazuza, e dizia que ele “escandalizou”.
eu lembro

lembro que você me ensinou a gostar de ler,
sem usar ao menos uma palavra.
eu ainda não sabia que a leitura me salvaria 
tantas e tantas vezes.

lembro que conheci poesia através de você,
que adorava recitar seus versos e suas canções.
e acredito que eu ame a arte porque você amava a arte.


lembro que o amor às palavras veio de dentro de você pra mim,
assim como a sua cor, seu nariz e seus olhos.

lembro também que tivemos dias tempestuosos,
quando eu queria falar mais alto, imaturidade da juventude.

lembro das praias que fomos, de momentos bons do passado e do quanto eu achava você inteligente.

lembro agora da sua assinatura, das suas piadas sem graça, do quanto você gostava de cantar, da forma como você olhava com orgulho pra todos nós filhos, da sua timidez, dos dias de alegrias entre você e minha mãe e lembro do toque no meu pé quando saía pra trabalhar.

eu lembro de muitas outras coisas que são difíceis de lembrar, mas uma coisa eu peço a Deus, que eu sempre lembre de você.

Pai, eu te amo.

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