Um dia qualquer

                                 

                                          

  O dia havia começado de forma muito fatídica naquela manhã. Anna não esperava uma ligação do seu pai, quanto mais tão cedo. Desde que saíra de casa sentiu que tudo havia piorado; quanto mais nas condições em que as coisas aconteceram. Ela havia imigrado para um país ilegalmente e sua vida se resumia ao simples ato de viver um dia após o outro.
 '' - Anna, você tem que voltar pra casa. Sabe o quanto sua mãe se preocupa''. O pai de Anna nunca fora bom em admitir seus sentimentos; não era do feitio dele ceder e ser sentimental. Mais uma vez confrontada com esse mesmo pedido, ela não pensou duas vezes em repetir o que sempre dizia:'' - Pai, estou bem. Eu estava pior aí com vocês; não quero que você continue ligando se for para pedir que eu volte''. Ela sempre desligava sem deixar seu pai falar mais nada. Não era uma atitude da qual se orgulhava,mas também sabia que não podia reconhecer sua situação deplorável por um telefonema. Depois de todas as suas tentativas era vergonhoso que ela pedisse ajuda; não que ela fosse orgulhosa, porém sentia-se no dever de viver sozinha e de tentar se manter viva.
  Era domingo e o dia de folga significava um dia inteiro sem trabalho, nada mais. Anna já não se sentia bem naquela cidade e as vezes pensava em realmente voltar pra casa. Demorou, mas finalmente havia percebido que estava vivendo a mesma vida, só que de forma mais automática. Todos os lugares que ela havia visitado nas primeiras semanas perderam a graça e até o seu propósito em continuar estudando mesmo que a noite, não durou muito tempo. Fazia um ano que ela estava ali, naquele quartinho  mal localizado. Seus vizinhos pareciam pessoas tristes e de poucas palavras pensava ela, e nunca havia visto uma criança sequer naquele prédio.
  Quando se lembrava das tardes de domingo e todo aquele ritual que acontecia quando seu pai não trabalhava, Anna se sentia grata por estar sozinha num lugar tão frio e solitário. Sua relação com o pai sempre teve suas dificuldades, contudo não fora esse o motivo principal da sua mudança. Quando refletia sobre isso, ela não conseguia achar um motivo maior ou até mesmo algo concreto; as piores manhãs com certeza eram as manhãs em que as saudades de sua mãe vinham com toda a força.
  Finalmente ela levantou e comeu algo. Não era o que comeria se estivesse em casa; aliás se estivesse em casa não acordaria as sete da manhã. Depois de comer ela assistiu um pouco de televisão enquanto conversava com alguns amigos pelo celular. Anna nunca falava a verdade; seus amigos a questionavam como ia a vida e ela dizia que estava bem, que tudo era como ela esperava que fosse. Por mais incrível que pareça ela não estava mentindo.
  Passou horas sentada no sofá e só olhou para o relógio meio-dia. Decidiu dar uma saída. mais tarde ia em uma igreja do bairro. Muita gente pobre e estranha, ela pensava, mas era um lugar acolhedor. Andou pelo parque e sentou num banco; estava como sempre observando cada detalhe a sua volta. Se alguém reparasse nela veria o estado deprimente em que se encontrava: cabelos soltos, de chinelos e com cara de sono. Depois de olhar para tudo por alguns minutos, Anna se levantou e continuou andando. Recebeu uma mensagem de Robert, um garoto que trabalhava num mercadinho em sua rua. ''-Quer almoçar?'', dizia a mensagem; ''-Não'', respondeu Anna. ''-Estarei no restaurante do Marcelo daqui a vinte minutos. Robert era insistente; ele sabia que ela não gostava dele. Na verdade não parecia gostar nem dela mesma. Algo o atraía nela mesmo que fosse tão estranha.
   Anna estava lá com ele mais tarde. Os dois sempre acabavam almoçando nos finais de semana, e a conversa sempre acabava com um ''-Não Robert, eu ainda não gosto de você. Te aviso se algo mudar.'' Eles já brincavam um com outro,mas não passava disso. Depois de terminar ela se despediu e fez seu caminho de volta à pé; eram poucas quadras. Tinha muita gente na rua nesse horário, muito mais do o confortável. As pessoas esbarravam e passavam falando alto no celular. Até aí, nada demais. Algo aconteceu que fez com que Anna ficasse com medo de repente. Não queria admitir mas depois de andar dois quarteirões percebeu que um cara estava a seguindo do outro lado da rua. Ele tirava fotos e estava de óculos escuros. No mesmo instante, por impulso ela desceu na primeira entrada de metrô que encontrou; pegou uma linha no sentido de outro bairro e só saiu na estação final.''- Deve ser alguém da polícia'', pensava, Afinal ela era uma ilegal. Anna tinha uma amiga nesse bairro. Era seu primeiro contato na cidade, Sarah. Ela havia ajudado Anna no início de tudo e de certa forma aconselhara a não andar muito pelos mesmos lugares. Ao chegar no apartamento da amiga, não havia ninguém, Anna tinha uma chave e entrou. Sarah mandara uma mensagem dizendo que estava em outra cidade naquele final de semana e disse que ela entrasse.
   Já era noite e seus planos de ir a igreja não se realizaram. Ela decidiu voltar pra seu quartinho e saiu. A rua não estava tão cheia e o frio realmente tinha chegado. Felizmente ela tinha deixado sapatos e um casaco no apartamento de Sarah. ''-Será que homem estava mesmo te seguindo Anna? Tem certeza disso?'', Questionava Sarah. ''-Tenho sim, demorou pra eu perceber. Ele até ficou surpreso quando comecei a andar mais rápido. Ele percebeu que eu o tinha visto.'' ''- Não deve ser nada, eu espero. Mas fez bem em dar uma sumida. Espero que esteja bem, Tenho que desligar até mais.'' Anna estava com muito frio quando finalmente chegou na sua rua. O metrô estava vazio até por ser domingo à noite; mas estava muito vazio pra ela dadas as circunstâncias. Nada aconteceu até ela deitar. Não estava tarde mais acordava cedo; seu trabalho exigia disposição por isso já estava deitada. Ficou mais um tempo na internet e quando estava quase dormindo lembrou-se de que havia visto o  mesmo homem que a perseguira em um dos cultos; isso a fez estremecer por dentro.Sair no outro dia pra trabalhar não seria fácil.

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