Pensamentos
Esse dia tinha sido um dos mais tristes que havia passado. Não porque se sentia triste de verdade; já se sentira muito mais deprimido conversando com seu pai, por exemplo. A verdade era que essa tristeza vinha de uma necessidade que ele já havia constatado: precisava mudar um pouco sua rotina. E pra isso, precisava também parar de pensar sobre os últimos acontecimentos, que além de não serem fáceis de esquecer foram decisivos para definir sua atual situação.
O trabalho era cansativo e tinha o mesmo tom de obrigação durante os dias da semana; o que o fazia ficar sem ânimo no sábado e, com preguiça, no domingo. Ele não esperava ter esse tipo de ocupação quando mais jovem, mas os acontecimentos da vida realmente o levaram a um ponto em que era trabalhar com qualquer coisa ou passar fome. A crise dos vinte chegou muito antes, já na adolescência. Seus pais eram problemáticos brigando com frequência na sua frente, e seus problemas emocionais foram resultado da ''clássica'' atribuição da culpa pelo filho pelas brigas de seus pais. Sempre teve poucos amigos e se sentia alegre com a presença deles, mas a ausência de uma atividade em um determinado dia da semana se tornava um grande inimigo para o pobre sujeito.
Nunca fora um aluno exemplar e se martirizava ao fazer comparações com outras famílias e como eram tradicionais e coesas; ao contrário da sua. É claro que com a maturidade que alcançou nos seus trinta e poucos anos, pôde ver que todos aqueles parâmetros não existiam, e seus anseios de juventude se davam pela sua falta de gratidão aos seus pais e por sua visão muito limitada do que seria a vida. Isso era mais difícil de constatar do que simplesmente aceitar sua condição de vítima. Seus pensamentos agora giravam em torno de um futuro incerto e de uma certa admiração por coisas pequenas e passageiras.
Seus amores foram tão idealizados que até ele se questionava se um dia realmente aconteceram de verdade. As experiências de rejeição fizeram com ele se isolasse cada vez mais em seu mundo de pensamentos românticos onde ele era o centro de uma história clichê de conto de fadas; a diferença se dava no ponto de que a espera era por uma princesa, e não por um príncipe. Já havia escutado vários amigos e conhecidos dizendo sobre a importância de investir em algo, de se permitir a alguém; mas seu medo em ser rejeitado falava mais alto e seus padrões o impediam de olhar por um ponto de vista diferente. Na verdade, estava extremamente acomodado com a vida que levava, mesmo que se sentisse perdido e solitário as vezes. Pobre coitado!
A história de verdade começou naquela terça-feira que fora mais um dia triste e cansativo. Depois do trabalho, por volta das seis da tarde, ele marcara um encontro online com uma garota que morava na mesma cidade que ele. Suas expectativas eram baixíssimas e estava ali para talvez tentar algo ou talvez para apreciar a natureza daquele parque. Depois das sete da noite começou a sentir um pouco incomodado com a demora e ao olhar pro celular leu a terrível mensagem: 'Não poderei ir hoje; Marcamos outra hora'.
'Tudo bem' , ele respondeu o mais friamente possível; se tinha uma coisa que havia desenvolvido nesses anos era o comportamento da indiferença. Mesmo que não se encaixasse com ele, esse era o seu eu indiferente. Depois de descer do ônibus em frente ao seu prédio, deu uma passada no supermercado e comprou uma lasanha pra micro-ondas. Suas refeições iam de saudáveis e elaboradas a industrializadas e práticas; dependia muito de seu estado emocional. Ele era o tipo de pessoa que se abatia facilmente e seu temperamento podia não ser percebido pelos que o cercavam.
O apartamento que morava há mais de dois anos era do tamanho certo para uma pessoa solteira e sedentária; não possuía muito espaço, mas era o suficiente para ele. Não costumava levar ninguém para lá e se sentia aliviado quando chegava e podia ficar sozinho. Ao contrário do que muitas outras pessoas alegavam, ele conseguia ficar sozinho por muito tempo. Talvez isso se desse pelo fato de ter crescido numa casa onde não havia privacidade ou pela dificuldade que nosso amigo tinha em se relacionar com as pessoas.
Entrou, ligou as luzes, foi ao banheiro, sentou, comeu e deitou. Essa foi a rotina daquele dia. Os pensamentos fluíram como se fossem um rio turbulento em sua cabeça. A luz do quarto estava apagada, mas sua mente estava ligada como se fosse meio-dia. Nada fazia muito sentido quando ele tinha esses pensamentos antes de dormir, e seus medos e incertezas pareciam gritar bem perto do seu ouvido. Na verdade, muitas vezes ele se concentrava tanto que podia tocar o silêncio que o envolvia. ' Será que ela desistiu? 'Achou que eu queria algo a mais que apenas conversar? 'Porque foi tão fria?' ; Todas essas perguntas não tinham respostas claras para ele. Os seus sentimentos eram confusos e tudo parecia girar em uma velocidade incrível dentro dele.
Levantando-se, sentou na cama. Eram onze e meia da noite e o calor o fazia suar da cabeça aos pés. Sua testa estava molhada e suas costas também; tomar um banho poderia ajudar a dormir, talvez. Quando terminou se sentiu aliviado e renovado, não pela água fresca, mas pelo simples fato de ter tomado banho. Porém, ele não conseguia responder qual fora o motivo de ter ido dormir sem estar limpo. A realidade era que ele andava muito alheio ao que ele mesmo fazia, fazendo com que suas emoções levassem ele a agir de forma impensada.
Nosso amigo, nesse instante, se questionou sobre o que havia acontecido para que ele se sentisse tão deprimido ultimamente. Alguma coisa havia mudado nesse último ano; parecia que algo o 'empurrava' para uma sensação de cansaço sem fim. Estaria ele com depressão? ou seria algo imposto por seu próprio pensamento introvertido e extremamente reflexivo? Ele não sabia.
'Talvez eu esteja escolhendo sofrer. Talvez, minhas escolhas me coloquem como vítima de uma situação da qual eu não posso sair. acho que pra mim é mais fácil se fechar e não se comprometer com nada mais complexo do que simplesmente se queixar de tudo. Eu sei o que posso fazer, mas mesmo assim escolho ficar parado. E essa escolha tem me colocado em uma posição de profunda estagnação e tristeza'.
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