Águas
Havia um homem que há muito tempo estava à beira de um rio. Ele mesmo não sabia ao certo se eram anos oi décadas, só o que fazia, era ficar ali. As noites passavam e os dias chegavam, trazendo ventos, chuvas e sol escaldante; o homem permanecia no mesmo lugar.
Os pés estavam alinhados, um ao lado do outro, descalços. A sensação das pedras frias era quase que imperceptível em dias de muito calor, mas insuportável quando a temperatura baixava. Em meio aos murmúrios de animais e o barulho do rio, esse homem esperava.
A verdade é que o motivo da espera já havia a muito se esquecido, e na sua mente, a lembrança mais antiga eram as imagens de um dia estar submerso naquele rio. As águas que mudavam dependendo da época, podiam se tornas cristalinas ou verde escuro e nem mesmo o rio era sempre um rio; ele podia se tornar um lago e até o mar.
Agora era um lago enorme o qual não podia ser totalmente contemplado sem que se pudesse voar. Ele sabia que era um lago por que as águas falavam com ele e chamavam pelo seu nome. Era profundo e obscuro e a temperatura baixa não o atraía. Permanecia ali, na superfície, com os pés quase tocando na água, sem realmente tocar.
Alguns dias ele se perguntava sobre a existência do lago. Se as águas mudavam de acordo com os dias, por que não acreditar que aquilo tudo passava de mera ilusão? O homem não tinha certeza. Quando isso acontecia, tudo secava e um deserto sem vida se apresentava; era a forma das águas dizerem que estavam ofendidas com a incredulidade.
Desde sempre, ele não se mexia, apenas contemplava o que agora era o lago. Ao longe ele conseguia ver pessoas passando a nado. Braçadas expansivas e confiantes, ele os invejava. Não conseguia ver o rosto dessas pessoas, mas sabia que cada uma delas devia se ocupar de algo grande, por que a velocidade com que deslizavam deixava claro um objetivo grandioso. Ninguém, é claro, vinha em sua direção.
A solidão era interrompida por outros, que assim como ele, apareciam à beira das águas. Todos eles, um a um, conseguiam entrar e seguiam, mesmo que o momento fosse de um mar revolto. Alguns também ficaram muito tempo por ali, e o homem até fez amizades com alguns deles. Contudo, depois de um longo período, todos iam embora.
A forma como eles sumiam era diferente. As crianças normalmente afundavam, os homens nadavam por um tempo e depois logo estavam submersos e as mulheres, muitas delas, saíam correndo e desapareciam, quase que instantaneamente nas aguas profundas. O homem percebia que mesmo que houvessem semelhanças, cada pessoa se comportava de forma diferente. Nenhuma experiência era igual a outra.
O lago agora diminuira de tamanho, e quando isso acontecia, ele conseguia ver pessoas em torno da margem, que assim como ele, pareciam desde sempre cativos ao lugar que estavam; a beira das águas. O semblante era de neutralidade, as águas serenas do lago refletidas na expressão de todos ali. Uma criança correu para a água, e ao tropeçar em um pedra, caiu, e o lago a recolheu com suas mãos úmidas e frias; como num passe de mágica, ela desapareceu.
Quase todos sempre comemoravam quando alguém entrava, mas o homem nunca ficou alegre por ver alguém partir, ele se sentia só. Na verdade, seu desejo era o de que todos continuassem ali e talvez um dia, as pessoas seriam livres para não entrar naquela água.
À beira do lago só haviam duas coisas a se fazer: contemplar as águas, ou dar as costas olhando para o passado. O homem adorava conversar com o passado, ele o entendia perfeitamente. Foi em uma desses papos que ele viu sua vida antiga em uma praia. Com certeza ele era feliz, mas a memória era tão fraca e o passado era tão incerto em suas colocações, que ele tinha medo.
O passado falava com cada um e assumia formas diferentes. Para alguns, ele era uma pessoa qualquer, mas para ele, era sua mãe que falava sobre coisas outrora vividas.
Mais uns dias se passaram, e o pequeno lago agora era uma praia. O mar de um azul cristalino e a areia branca animava muito todos aqueles que estavam esperando. As pessoas se esticavam e se preparavam, as águas estava convidando para um banho. O homem não gostava quando a praia aparecia, era doloroso tentar lembrar e não conseguir de forma alguma. Ele com certeza iria tirar o dia para conversar com o passado.
- Eu tenho uma pessoa pra te apresentar - Disse o passado com um sorriso no rosto.
- Quem é?. O homem quis saber, mas antes mesmo de terminar a pergunta, ele sentiu uma pequena mão apertando sua mão calejada e ressecada.
Ele olhou para o lado e viu um menino pequeno, de uns seis anos de idade, segurando sua mão direita, de costas para o passado. O que fazia com que o homem estivesse de costas para o mar e o menino, de frente. Seus olhos estavam atentos nas ondas calmas que quebravam na areia, um sorriso largo com as falhas típicas das trocas de dente.
- Eu quero entrar, você vem comigo? - a criança agora olhava para ele com uma expressão de inocência e incerteza, demonstrando seu medo diante do desconhecido.
O homem então se virou, agora também olhando para o mar, segurava a mão do menino com sua mão esquerda.
- Eu não sei nadar -murmurou o homem.
- Tudo bem, a gente boia.
- Não posso, vai você.
- Tem certeza? O menino perguntou já olhando para as águas.
- Sim, eu vou olhar você daqui.
No mesmo momento o menino largou sua mão, e enquanto se aproximava das ondas, os pequenos pés deixavam marcas na areia fofa e quente. Ele colocou os pés na água e deu um gritinho de excitação; estava gelada. Quando já tinha água pela cintura, ele se virou e acenou para o homem, como se nunca mais fosse o ver.
- Me diz uma coisa, quem é você? - O homem gritou, colocando as mãos em volta da boca, para que o som de sua voz alcançasse o menino.
- Ainda não sabe? Eu sou você!
A criança então continuou avançando lentamente, as ondas fracas o puxando pra mais fundo, até que uma onda maior, com o dobro de seu tamanho, o encobriu.
Ele havia sumido.
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