cacto em vaso de rua
Eu não sei bem como cheguei aqui e há quanto tempo vivo nesse lugar. O sol sempre aparece muito cedo e quando vem a noite eu vejo a lua. É um lugar bem movimentado, sempre tem muita gente passando. Pessoas de todos os tipos, umas menores, bem pequenas, e outras bem grandes. Cada um com seu jeito de andar, expressão e intenção. Meu objetivo de vida é somente um, o de sobreviver. Eu aproveito cada segundo como uma oportunidade para me manter viva. Fico imaginando se esses que passam aqui também têm essas preocupações. Se eles precisam correr atrás da comida, prender o almoço, se proteger do frio...muitas são as coisas que passam na minha cabeça.
Hoje foi uma dia muito especial, pois um desses pequeninos olhou pra mim, ou pareceu que olhou. Os pelos dele eram todos enroladinhos na cabeça e seu rosto redondo e alegre. Eu sabia que ele sorria por causa de mim, isso me deixou muito feliz. Não é todo dia que nós somos observados fazendo o que costumamos fazer durante a rotina. Uma grandona estava com ele e o segurava pela mão, sua atenção estava voltada para outra grandona na frente dela, elas faziam muito barulho. A pessoinha esticou a outra mãozinha em minha direção, eu me afastei com toda a pressa. Queria muito saber se ele era macio como parecia, mas meu medo foi maior. Os dedos encontraram minha casa e fizeram um estrago: todo uma trabalho de um bom tempo havia sido desfeito. Embora isso tenha acontecido, eu fiquei mais feliz ainda, ele levaria com ele uma parte do meu trabalho. Talvez contasse para outras pessoas o quanto gostou da minha habilidade e voltasse mais vezes. Logo depois, a mãe puxou o menino pela mão e parecia estar zangada com o meu trabalho todo enrolado em seus dedos. O pequenino não ligava, estava com as presas de fora, mas eu não consegui ver se eles guardaram minha preciosidade em algum lugar pois logo sumiram. Eles são rápidos.
Eu vi o menorzinho outro dia, mas ele nem parou para me cumprimentar, eu fiquei triste. Ninguém para. Ele passou com a grandona muito rápido e estava com o rosto todo aguado, como quando cai água de muito alto. O barulho que saía da boca do pequenino era muito alto, mais alto do que aquelas coisas gigantes que passam a todo momento em frente à minha casa. Acredito que se ele me visse ajudaria um pouco, mas dessa vez não ouve nenhuma outra grandona querendo barulhar com a grandona dele.
Existe um lugar que sempre passavam algumas pessoas em frente ao meu cantinho. Eles entram, ficam um tempo, e saem. Não sei bem o motivo das visitas, mas alguns deles sempre trazem coisas em suas patas e colocam em suas bocas. Ali com certeza é o lugar onde elas buscam a comida. Estou decidida desde então a ensina-los como conseguir o sustento em seu próprio espaço. Se eu faço, eles também podiam fazer. É claro que não sei se eles têm casa, sempre que os vejo é andando de um lado para o outro, mas não custa nada transmitir o conhecimento que tenho, só assim eles terão um lugar pra viver.
Meu plano tem dado muito certo até agora. Eu fiz o máximo de tramas que pude e me esforcei muito para cobrir uma grande área. Parece que eu também estou maior, pois me movo com mais facilidade e as tarefas não parecem tão difíceis. Uma hora alguém vem aqui e eu vou tentar contar o que eu sei, tenho ajudá-los de alguma forma.
Tem uma grandona vindo para aqui mais perto, estou muito feliz, vai acontecer! Agora ela se afastou de novo e está barulhando com um grandão lá dentro, não sei o que acontece. Ela trouxe uma coisa engraçada entre os dedos da pata, algo muito diferente do que eu conheço, não sei para o que serve. A medida que se aproxima, a grandona resmunga barulhos e usa a coisa para destruir meu trabalho árduo. Eu tento correr, mas ela é muito rápida, consegue me acertar com aquilo e eu fico zonza. Quando eu caio no chão já estou pronta para reagir, mas a última coisa que vejo é sua pata de baixo por sobre a minha cabeça. Meus pensamentos agora flutuam e não sinto mais nada. Talvez só o pequenino tenha percebido minha obra-prima de verdade.
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