calor
Eles já haviam estado naquele restaurante mais de dez vezes nos últimos dois anos - Gustavo adorava o ambiente, Fernanda não. A construção ficava em uma praça pública, em uma área mais reservada rodeada por árvores. Para a jovem noiva prestes a se casar, a sensação de exposição era incômoda. Os dois estavam ali para comemorar a promoção de Gustavo para o cargo de supervisor de marketing digital da empresa onde trabalhava. Cargo muito bom e que pagava muito bem. A noite em questão estava movimentada, com muitas mesas cheias e o salão lotado. O casal teve de sentar em lugares improvisados fora do restaurante, na área externa, dentro da praça.
O pedido sempre era o mesmo quando iam ali: macarrão com molho carbonara e uma taça de sorvete para os dois no final. A comida era boa, não havia do que reclamar, porém o serviço não era tão rápido e os garçons um pouco antipáticos. Apesar disso, Fernanda adorava a companhia de Gustavo. Ela costumava dizer que até pegar chuva com ele era algo que a deixava feliz. As conversas dos dois ultimamente giravam em torno dos preparativos para a cerimônia de casamento e a festa que aconteceria logo depois. A mãe de Fernanda não estava tão entusiasmada, o que abriu espaço para que os pais de Gustavo assumissem como sogro e sogra dedicados que eram.
" - Tem um homem lá perto do portão da praça olhando para a gente faz uns cinco minutos." - Fernanda disse com preocupação em sua voz. Gustavo, que já estava acostumado com as paranoias da namorada nem se virou para encarar o tal sujeito, acreditou ser um exagero da parte dela. A mulher começou a ficar irritada quando percebeu que mesmo com seus avisos, seu noivo não levou a sério o que estava dizendo. Mais cinco minutos se passaram e entre as muitas informações sobre o novo cargo de seu noivo, Fernanda via o homem se aproximar lentamente. Talvez fosse algo da sua cabeça, pois o estranho não olhava mais para o casal, parecia se mover em uma dança estranha, onde os olhos não encaravam o rosto e sim o chão. Ela estava começando a ficar nervosa.
" - O Felipe reclamou com a gerência quando me nomearam, você acredita nisso? Parece até que tem inveja de mim por outros motivos..." Como se um clique tivesse despertado sua atenção, Fernanda saiu do transe que se encontrava e voltou para a conversa. Mais uma vez a mulher escutava os "outros motivos" saindo da boca de Gustavo e dessa vez decidiu não deixar passar. "- Como assim outros motivos? Você fez algo?" - Fernanda tinha uma expressão tensa em seu olhar. Gustavo se assustou com a pergunta, como se não estivesse esperando que algo assim acontecesse. O homem então explicou que muitos colegas de trabalho ficavam com inveja quando alguém era promovido, e isso era normal.
Depois de terminarem o jantar e a sobremesa, era visível o cansaço dos dois, a noite estava no fim. Fernanda ainda se sentia tensa com a presença do estranho na praça, agora a menos de dez metros de distância do casal. Ele estava sentado de costas para eles lendo um livro e olhava para trás como se estivesse checando se os dois ainda estavam ali. Não era possível que isso estivesse acontecendo, mas o mais estranho era perceber que Gustavo também se sentia incomodado, só que não queria demonstrar. Talvez tenha sido o efeito do álcool ou as dúvidas que pairavam em sua cabeça há meses que a fizeram falar: " - Eu queria saber o porquê de você sempre demorar a me responder nas sextas depois do expediente"- A mulher tinha um tom magoado em sua voz. Gustavo balançou na cadeira, sua expressão indo de uma casualidade forçada ao nervosismo escancarado. "- Por que você está perguntando isso, Fernanda?" - O clima agora havia mudado instantaneamente.
"- Eu não sei, me diz você. Outro dia eu olhei sem querer seu celular e vi três mensagens de um Felipe, não li." O noivo recém promovido estava suando frio. Ele já não sabia mais o que dizer, porém continuou transparecendo o nervosismo típico de quem teve sua privacidade desrespeitada. " - É esse cara do trabalho, ele tem fixação por mim, me persegue lá dentro." Foi aí que a história ficou confusa para Fernanda. Ela juntou os pontos e todas as mensagens que sua mãe a enviara agora faziam sentido. Sílvia havia visto os dois, Felipe e Gustavo, conversando sentados em um banco à beira mar, muito tarde da noite enquanto passava de carro. Quando cumprimentou o futuro genro, gerando um claro desconforto, seguiu em frente, mas achou tudo muito estranho. Ela avisara sua filha para que observasse. Em nenhuma das vezes Fernanda deu ouvidos ao que ela dizia.
Fernanda então se levantou para ir embora, um rompante que lhe caía bem, já que era assim que ela agia quando ficava nervosa ou sem saber o que fazer. Ela simplesmente fugia das situações de tensão e conflito de forma literal. Ao ver isso acontecer o estranho saltou do banco e correu em direção ao casal, não sabia muito bem o que estava fazendo, mas o seu coração batia mais rápido do que nunca, era a hora. Ao chegar perto da mesa, ele encarou o rosto incrédulo de Gustavo, e enquanto segurava o pulso de Fernanda, impedindo que ela saísse, tirou uma faca do bolso e fez um corte em seu próprio pescoço. Estava feito. O sangue corria de forma abundante e ele tentava falar coisas para Gustavo, todas elas abafadas pela dor. As pessoas no restaurante ficaram aterrorizadas. Muitos correram e algumas mulheres gritaram, senhoras desmaiaram e pais cobriam os rostos de seus filhos.
Em uma tentativa desesperada de estancar o sangramento, Gustavo puxou a toalha branca da mesa derrubando tudo que estava em cima. Pressionando o tecido contra o pescoço de Felipe ele percebeu que o homem, agora caído no chão, tentava falar algo. "Eu, eu.. Não devia... mas, eu, eu...te amei demais... eu não queria ficar sozinho" - A voz dele agonizava. Fernanda vira aquilo tudo como se fosse um filme, não parecia a história de sua vida. Ela correu para longe, e enquanto escutava os gritos desesperados de Gustavo para que ficasse, não olhou para trás. A mulher se afastou o máximo que pôde, as lágrimas correndo pelo seu rosto quente. O dia mais quente daquele ano, o telejornal informou. Ao chegar ao fim da rua, já vendo o mar, Fernanda parou e contemplou a imensidão agora obscura. As pessoas caminhavam de mãos dadas, sorriam, tomavam sorvete; ninguém sabia o que havia ocorrido, é claro. Ela então desejou não saber o que sabia, não ter passado pelo que passou, mas já era tarde demais. Essa era a sua vida, e sua história estaria para sempre marcada pelo que aconteceu.
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