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Eu ando pensando sobre isso faz tempo. Quero muito ser ele. Minha tutora disse que eu consigo e, com esforço, vou alcançar o meu objetivo. Devo cumprir o ritual durante três meses e no fim da última noite ele não será mais ele, será eu. Eu esperei toda a minha vida por isso e finalmente vai se concretizar. As minhas irmãs, meus tios, minhas primas... todos eles irão ver o quanto eu sou especial quando o processo de transferência for concluído. Eu poderei dizer que sou um filho dos parasitas, um dedicado de verdade.
Minha obsessão com esse ser humano em específico começou há uns doze meses atrás, um ano. Eu estava andando fazendo meu caminho de obrigação em torno da praça da Sé e o vi; foi uma atração como nenhuma outra. O espírito estava abaixo da terra e a alma se balançava como se quisesse se desprender do corpo: o alvo perfeito. No mesmo dia me aconselhei com a tutora da minha família e ela me orientou a pedir permissão aos sentinelas para que atravessasse minha rotina, podendo assim acompanhar o homem que eu já estava observando há semanas. Foi aí que o meu sonho começou, eu finalmente podia sentir que aquele era o momento. Não ficaria nunca mais cumprindo rotinas intermináveis,os mesmos rosto, lugares e sons. A verdade é que existia a possibilidade de dar errado, mas eu já estava fazendo a ronda por aquelas ruas do centro há exatos dez anos, eu não aguentava mais.
Ainda lembro do primeiro dia que o vi chorar por um amor não correspondido. Senti uma frieza tão grande em sua alma, ela não queria cooperar com o sentimento, era passional. O espírito se abatia com frequência, era até engraçado perceber como uma pessoa viva conseguia dispor de uma energia tão fraca. Eu sabia que comigo aquilo faria mais sentido, meu uso para o corpo e espírito dele seriam melhores, isso sem dúvida. O que eu estava esperando era o aval do supervisor para que eu pudesse aprender com minha tutora como materializar meus lábios. Se eu conseguisse fazer isso, era questão de tempo até que eu conseguisse fazer as gotas dos cento e vinte dias.
Comecei a colocar pistas para que ele soubesse que não estava sozinho. Uma vez, eu gastei bastante energia, ainda quando minha forma corpórea não se assemelhava tanto a dele, e me misturei por entre as nuvens no céu nublado de inverno. Eu vi quando ele chorou através da janela do ônibus e lembro de ter sentido a primeira coisa parecida com felicidade desde que fui pensado pelo pai maior. Depois de dez dias fazendo as gotas, que me custavam muito de início, eu comecei a aparecer nos sonhos dele como uma sensação de angústia. Eu adoro a sensação de angústia, é minha preferida. Ah, e quanto ao ritual das gotas, por enquanto eu prefiro não entrar em detalhes de como foi até pegar o jeito.
Quando eu já não conseguia subir nem mais um centímetro acima do solo eu sabia que o processo estava na metade. Minha construção física estava se desenvolvendo rápido. Eu posso explicar o motivo. Uma vez o homem encontrou um rapaz em um encontro e eu me mesclei na aparência do menino, refletindo tudo aquilo de melhor que eu já sabia que seria quando assumisse a completude do ser daquele homem. Eu fiz de propósito porque sabia que o pretendente estava com o espírito totalmente oposto, nada iria acontecer além de uma conjunção física. O meu objetivo era fazer com que o espírito se enfraquecesse ao máximo, para que a alma - que no caso estava me dando muito trabalho para ir embora - se sentisse forçada a deixar o corpo. Minha tutora disse que eu precisava ser sutil e que se eu não soubesse dosar minhas investidas ele morreria, fazendo com que eu perdesse todo o meu progresso. Além disso eu seria rebaixado para um sussurrador, e isso era pior do que ficar vagando eternamente por rotas pré-definidas.
Os últimos sessenta dias de ritual chegaram e esse era o momento mais difícil de todo o processo. Meu estado físico era notório e enquanto eu deixava as três gotas de sangue dos meus lábios caírem por sobre sua fronte eu tinha que ser o mais suave possível, já que ele conseguiria me ver se acordasse.Eu tinha muito medo de que desse errado, se eu desistisse eu retornaria ao estágio simples da minha forma, e minha tutora não havia me garantido que sairia de lá novamente. Era conseguir ou conseguir.
A alma começou a me causar muitos problemas quando faltavam ainda três semanas. O sono do homem era agitado e ele estava bebendo com mais frequência a confusão que implantei em suas emoções era tão forte que ele duvidava de si mesmo o tempo todo, até durante o sono. Seu corpo reagia porque sua alma queria se libertar daquele processo, ela estava aflita e era clara a inconformidade de sua mente e seu espírito. Eu estava mostrando todos os sinais para que ele ficasse dormente durante o dia. O inconsciente precisava muito se sentir dopado o tempo todo, esse era o caminho para que o sono fosse vazio e não deixasse que ele descansasse o suficiente, porém sem as perturbações do movimento.
Foi aí que ele um dia acordou diferente. Eu não conseguia escutar a alma, nunca consegui. Deve ter sido isso, minha tutora me mandou uma mensagem dizendo que eu a subestimei. A alma tinha muita força e talvez seja isso que tenha me encantado naquele homem: sua alma. Diferente do espírito ela oscilava de cima para baixo, mas para os lados também. Seu contínuo deslizar cobria meu corpo enquanto dormia ao lado dele e isso me deixava com náuseas, era péssimo. Faltando dez dias para que eu terminasse o processo ele decidiu que não queria mais viver e isso me colocava em grande risco porque eu iria junto com ele pra onde quer que fosse.
Me despedi da minha família através das propagações dos habitados do centro e a mensagem chegou ao interior intacta. Eu dizia que escolhi o certo pela primeira vez.Minha mãe, fiquei sabendo, ficou alegre e colocou os braços para o céu. Tirando ela, todo o resto me achou um covarde.
Faltando sete dias eu decidi acordar o homem durante o processo. Eu iria assumir sua forma e faria com que ele tivesse uma conversa consigo mesmo. Eu precisava agir naquele dia, e por mais que eu temesse o que viria depois, eu sabia que o preço era muito alto, não queria ficar ligado à sua alma pro resto dos tempos. Uma coisa era certa, ele faria antes dos setes dias serem completos.
Naquele dia eu me coloquei por sobre ele e falei bem baixo: ''- Acorda,vamos conversar.'' Ele se mexeu na cama como se resmungasse, porém lentamente abriu os olhos, ainda dormia porém me via claramente. Ele estava sereno, me escutava bem. Foi aí que eu comecei: " - Você vai acordar e vai ser aquilo que você sempre quis ser. Não algum outro ou alguém mais, você vai caber em si mesmo. Eu sei o quanto você sofre e é por isso que quero te ver melhor. Você a partir de hoje vai se esquecer de quem você não é. E seja assim." Nesse momento seus olhos se cobriram com o que pareciam ser lâminas espessas, como membranas que o que queria envolver. Eu senti um sono profundo e despenquei durante alguns minutos. Não senti a queda porque dormia, sofri pouco porque minha tutora intercedeu por mim junto ao pai maior.
Eu não sei qual o caminho aquele homem seguiu e admito que sinto saudades da forma como ele enxergava as coisas. Assim como ele, a maioria dos humanos não percebe a beleza com a qual eles são e isso sim é muito triste. Anos se passaram e agora vivo em rotinas no centro de uma cidade do interior, uma pasmaceira sem fim. Demorou muito para eu voltar afazer rondas e acho que vou ficar assim mesmo. Eu prefiro observar os choros, os risos, as decepções e as despedidas. Aprendi que tudo isso me completa de um outro jeito muito mais profundo.
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