sensação

 O momento em que ele se despedia de sua amada era o pior de todos, não conseguia controlar. Seus nervos ficavam a flor da pele, o suor escorrendo de suas têmporas e seguindo por de trás de suas orelhas. Cada movimento era um sofrimento intenso demais e sua vida parecia depender do quão rápido ele conseguiria se afastar. Ele sentia demais.

Quando ainda era criança todos comentavam com sua mãe que seu comportamento era um tanto quanto "exagerado", ou que não era normal que alguém fosse tão emotivo. Uma briga na escola ou um tombo de bicicleta eram dramas sem fim, ele chorava por dias. A mãe preocupada o levou a alguns médicos que acabaram por confirmar que seu filho não sofria de nenhum mal físico; o problema estava na mente do garoto. Os remédios então foram prescritos e mesmo as doses mais fortes não foram o suficiente para aplacar aquilo que sentia.

Muitos anos se passaram e o homem continuou sentindo tudo a sua volta. Ele observava as pessoas e podia entender o que estavam passando somente com um olhar. Depois de fases turbulentas de negação e confusão ele sabia que o que acontecia não era somente um sentimento, as dores das outras pessoas também podiam ser carregadas por ele. Foi assim que tudo passou a ter mais sentido, quando o homem percebeu que seu papel no mundo era carregar as tristezas dos outros.

Uma festa de aniversário de uma amiga da faculdade fez com que ele tivesse certeza de que não era uma pessoa comum. Os preparativos estavam tomando todo o tempo de Carla, uma aluna de engenharia elétrica com dificuldades para se comunicar com as pessoas. A ansiedade tomava conta da menina e a sala da república onde vivia estava decorada com motivos de um anime que ela assistia. A amizade entre eles se deu de forma espontânea. Com 20 anos, o homem já havia percebido que sua presença ajudava as pessoas de alguma forma. Ele também gostava muito de sua amiga e decidiu aparecer em sua festa pois sabia que os colegas de turma tinham receio de se aproximar dela. O tema escolhido e até mesmo o fato de não conseguir conversar sobre assuntos variados sempre fez com que Carla fosse deixada de lado.

Depois de uma hora do início da festa, Carla começou a se sentir nervosa porque nenhum de seus convidados, exceto seu amigo, apareceu. Ela começou a chorar, dizendo que já sabia que ninguém iria e que não devia ter gasto dinheiro com aquilo tudo. "Quem faz festa de aniversário na faculdade?- ela perguntava pra si mesma enquanto enxugava os olhos com a manga de sua roupa de ninja. Ele podia sentir as ondas de confusão que iam e vinham e giravam dentro da mente da garota. Quando se sentava ao lado dela, a tensão fluía entre os corpos, fazendo com que o homem tivesse calafrios. Isso era algo comum para ele, porém só durante aqueles momentos pôde perceber que sua presença retirava o fardo que se encontrava na menina e colocava em cima dele mesmo. O seu toque servia como um canal que absorvia o sofrimento.

Ao se despedir de Carla ele percebeu que talvez as coisas estivessem piores do que ela queria demonstrar. Havia algo nos olhos dela que não queriam revelar o que estava por trás da aparência controlada. Entretanto, era normal que as coisas ficassem muito ruins para as pessoas e depois passasse. Ele presenciou outras situações como essa antes, passado algum tempo, o sofrimento que ela sentia iria se tornar algo mais suportável. 

Andando pela rua e olhando as pessoas com seus amigos ele reconheceu a injustiça inerente ao viver. Algumas pessoas sofrem muito para conseguir realizar tarefas fáceis, enquanto outras dão a impressão de que tudo é muito simples. Ele sabia, no entanto, que aquilo era somente o que se via por fora. No interior de cada pessoa existia uma miríade de sentimentos, tentando dar voz às dores que não eram expressadas por palavras; podia ser torturante.

Ele começou a ficar preocupado quando já havia passado quatro quadras de onde sua amiga estava. A conexão ainda continuava intensa e agora o sentimento de tristeza se misturava ao de desespero. Não era incomum que isso acontecesse, porém ele sabia que aquele era um mal sinal. Quando passou em frente um parque, ele lembrou que precisava levar o cachorro para passear com mais frequência e mandou uma mensagem para Carla: "Que tal andarmos com Billy no parque amanhã de manhã? É domingo, vai ser bom. :)" Não houve resposta e o celular nem estava conectado à rede. 

Automaticamente ele deu meia volta e foi em direção ao apartamento da amiga. Agora as ondas de calor que indicavam uma intenção forte de algo ruim começaram. Ele entendia que aquele era um sentimento perigoso, porque a última vez que sentiu esse calor ele presenciou uma briga entre dois jovens bêbados. Agora era diferente, não existia uma limitação para o sentimento. Tudo fluía em direção ao seu corpo, estava ficando difícil andar e até mesmo respirar. Ele começou a chorar enquanto se apoiava no muro de uma escola. 

Os sons do quarto de Carla estavam agora em seus ouvidos. Enquanto algo que parecia uma torneira aberta estava mais perto, o som da música de anime ainda tocava na sala. Foi aí que veio a dor. Uma pontada, duas, três e quatro em seus pulsos, era agonizante. Ele deixou escapar um grito e chorava muito, era demais para ele suportar. O choro era uma mistura de seu sofrimento e o de sua amiga, ele precisava correr. Enquanto tentava ficar firme, suas forças lentamente ficavam mínimas, era crucial que ele se concentrasse em seu corpo, porque no fim, isso não estava acontecendo com ele. Faltando uma quadra para o apartamento de Carla ele esperava escutar a sirene de ambulância a qualquer momento, contudo isso iria demorar talvez ainda quinze minutos. Parado no sinal o desespero tomou conta e ele não sentiu mais a conexão. A verdade é que não dava para ter certeza se ela havia desmaiado, mas ele correu e se colocou em frente a um carro que passava bem acima do limite de velocidade. Em instantes, tudo ficou escuro.

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O rumor era de que Carla e seu amigo combinaram de morrer ao mesmo tempo. As pessoas passaram a comentar sobre como ela conseguiu puxar um menino tão bom para sua bagunça pessoal. Que apesar dele insistir na amizade com alguém tão negativo como Carla, ele não merecia ter sido manipulado daquela forma. Outras pessoas também diziam que foi uma fatalidade e uma perda grandiosa para as famílias. Todas as histórias falhavam em explicar o que de fato aconteceu, mas isso possivelmente era um indício de que nenhum deles sentia o suficiente.  

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