As famílias de Laura




          Era o 25 aniversário de Laura. Ela não tinha muito o que comemorar, já que ainda estava tentando arranjar um emprego e seu trabalho principal ainda era quase que um bico. Muitas incertezas eram frequentes em seus pensamentos. Desde que saiu da faculdade, Laura se sentia perdida e desestimulada pelas coisas que aconteceram. O choque de descobrir que o seu pai tinha uma outra familia, foi duro. Contudo, o mais difícil deve ter ter sido perceber o quanto sua mãe se tornou uma pessoa amargurada e deprimida. A sensação de impotência em relação a isso fazia com que Laura se sentisse triste e ao mesmo tempo confusa.

Laura namorava com Rodrigo fazia dois anos. Eles eram um casal feliz, mas faltava algo para ela, faltava um sentimento que talvez ela nem sabia o que era, pelo fato de ainda não ter sentido. Laura queria algo mais, definitivamente. Rodrigo tinha a mesma idade que ela e já tinha uma certa estabilidade no trabalho e parecia bem satisfeito com a vida que levava. Ele já havia pedido Laura em casamento, mas a mesma recusou afirmando que era cedo e que ela também precisava construir algo antes de dar um passo tão grande na vida.

A verdade é que Laura tinha medo de se tornar uma versão renovado da sua mãe. Ela não via problema nenhum em ser apenas uma dona de casa, mas talvez esse fosse exatamente o problema. Ela sabia exatamente como uma mulher que dependia exclusivamente do marido era tratada, mesmo que o homem fosse amoroso e responsável. O seu pai sempre havia tratado sua mãe de forma cordial e nunca tinha demonstrado nenhum tipo de agressão mesmo que velada, mas havia algo muito inconsistente, e isso, Laura só percebeu depois de tudo. 

A forma como sei pai se referia a mãe dela, sempre guardava um tom sútil de superioridade, como se sua mãe fosse ingênua para certas coisas. Isso incomodava Laura profundamente e era claro que havia algo de estranho nesse comportamento. Os pais de Laura também nunca pareceram estar verdadeiramente juntos no sentido total da expressão. Por mais incrível que pareça, eles dificilmente se beijavam na sua frente ou demonstravam carinho um para o outro. Esse tipo de comportamento foi um dos motivos para que Laura tivesse grandes dificuldades em aceitar carinhos como demonstração de amor e de interesse, e ela sabia disso.

Quando Laura conheceu a família que seu pai mantinha em outra cidade, era como se ela estivesse vendo um outro homem. Um homem que estava satisfeito consigo mesmo e com a vida que levava. Com sua mãe, a impressão que tinha era que ele simplesmente suportava a situação, apenas isso. A mulher do seu pai era mais jovem que sua mãe, porém, na opinião de Laura, não tão bonita. Os dois irmãos mais novos de Laura eram ainda crianças de 6 e 7 anos. Eram meninos muito ingênuos e alegres e a chamavam de tia. Laura se sentia muito revoltada com toda a situação, mas nunca havia externalizado o que pensava para o seu pai. O pouco que havia conversado com ele, havia sido o suficiente para que ela se sentisse ainda mais triste é desorientada. 

Com a separação, a mãe de Laura ficou com o apartamento e o seu pai fora embora sem nada, já que tinha um lar para ir com cachorro e tudo. Durante os primeiros meses, era como se sua mãe nem existisse ali, o silêncio fazia com que Laura se sentisse solitária e ainda mais vazia por dentro. Depois de um ano, parecia que as coisas haviam voltado ao normal, mas sua mãe ainda demonstrava um semblante abatido e mais introvertido ainda. Era difícil para ela sentir que sua mãe nutria grande esperança de um dia receber seu pai à porta, para que ele voltasse a viver com elas.

Mesmo que isso acontecesse nada seria mais o mesmo, e talvez, as coisas piorassem. A verdade é que depois de dois anos, Laura já entendia que seu pai havia seguido aquilo que achava mais certo e que só tinha firmado uma coisa que levava escondido a anos. O problema era que a sua mãe vivia em dependência com o seu pai, e depois que ele se foi, tudo parecia não fazer mais sentido pra ela. Laura não queria isso pra ela, não queria ser dependente de alguém a ponto de se sentir estagnada e de não realizar as coisas por ela mesma. Não queria dedicar a vida a um homem que no fundo a iria desprezar a desvalorizar de forma velada. Não queria isso pra si, não mesmo. Mesmo que sua mãe fosse uma ótima mulher, o que havia impedido o seu pai de a trair? Nada. 

Laura não tinha muitas certezas na vida, mas uma delas era a de que não casaria para ser feliz, e a outra era de que precisava seguir em frente e entender que todos fazem escolhas em suas vidas, e essas escolhas às vezes ferem outras pessoas, e é necessário aprender e conviver com isso.

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