Poeira do meio dia
Seu Rangel acordou mal humorado, como sempre. Desde o seu aniversário de 77 anos em julho, ele havia percebido que seu genro só aparecia em casa pra pedir dinheiro e isso, obviamente, o incomodava. Cada dia mais certo de sua condição de um velho imprestavel, nosso querido senhor Rangel não resistia e reclamava de tudo que via ou do que ouvia. Mas era um reclamação interna, ele não externalizava absolutamente nada.
Era terça-feira, oito da manhã, 13 de janeiro. O calor já se fazia presente em todos os cômodos da casa e Dona Arlete já estava nos fundos da casa aguando as mudas de suculentas que comprara com o rapaz das plantas. Seu Rangel simplesmente detestava a mania da sua esposa em comprar todo tipo de coisa na porta de casa, ele não via necessidade em gastar dinheiro com certas coisas. Contudo, Arlete sempre respondia suas queixas com um simples: “ah, Rangel, para de ser ranzinza!”. O fundo da casa já tinha mais de 40 tipos de plantas e não pararia por aí.
Depois de levantar, nosso amigo senhor de idade decidiu colocar um banco em frente de casa para pegar um sol da manhã. Na verdade o sentimento era válido, já que ele não conseguia mais caminhar muito pelo fato da artrose estar atacando suas articulações e sua coluna travar com um simples espirro. O problema era que a casa de Seu Rangel e de Dona Arlete ficava à beira da rua principal de um bairro com grande movimentação e sem pavimentação. Já nos primeiros dois minutos, o nosso Senhor já havia sido envolto em três nuvens densas de poeira.
O calor já era consistente e beirava o insuportável, mas ele resistia com força. As pessoas já começavam a movimentar a calçada estreita, e quem passava, olhava com um olhar torto pro Seu Rangel sentado ali, no sol e na poeira. Dentro de sua cabeça, o homem se arrependeu amargamente em ter sentado ali, já que estava quente e bem desagradável. Um ônibus passou lotado e levantou outra nuvem densa de poeira. Dentro daquela nuvem, porém, Rangel viu algo diferente. Era disforme e não parecia real, mas ele tinha certeza que estava vendo. Aos poucos, a imagem foi se tornando mais sólida e mais clara até que de uma hora pra outra o velho percebeu que estava olhando a si mesmo desmaiado no chão. Do outro lado da rua, corria o dono do bar para ajudá-lo, mas seu corpo parecia não reagir.
Olhando para toda essa cena, Seu Rangel percebeu o quanto havia envelhecido. “Pra que pintar o cabelo de um tom de preto tão forte?”, ele pensou consigo mesmo. Era como se ele estivesse fora do seu corpo e sua mente visse como realmente ele era. O dono do bar da frente já estava esmurrando o portão da casa do homem fazia três minutos. Dona alerte provavelmente não estava escutando pois devia estar lá na cozinha escutando rádio alto. Quando finalmente apareceu, sua expressão passou de calma para aterrorizada em menos de 10 segundos. Arlete rapidamente se inclinou para perto do esposo que estava caído no chão, o que a fez quase cair também, não fosse o dono do Bar, o Teca, a segurando.
Tudo isso parecia muito estranho para o Seu Rangel. Como ele estava assistindo de tão longe? Como ele não estava sentindo nada daquilo? Será que ele estava morrendo? Era isso que era morrer?. Em um momento, todos os pensamentos mais desesperadores passaram por sua mente. Ele não havia tido oportunidade de avisar a Marta sua filha sobre o remédio da pressão de Arlete, que já estava no fim. Além disso, a Silvia não falava mais com ele fazia 4 anos. Mas porque ele lembrara disso agora?. Seu Rangel nesse instante teve um impulso que nem mesmo ele entendeu. Tentou com todas as suas forças alcançar o corpo no chão, mas não conseguiu, foi em vão o esforço.
Seria esse o fim da sua vida. Caído na calçada de terra, de uma rua de terra, de um bairro de terra, de um país de merda. Pois é, ele só reclamava, e foi assim a vida toda. Reclamava daquilo que aconteceu em 1977, da profissão do filho mais velho, da recepção do sinal da antena da TV, da comida da Dona Arlete, das dores, das desilusões, do passado, do futuro incerto, do medo de morrer sozinho, da insegurança de não saber tudo, do tempo perdido com o orgulho... de ser frustrado com a vida que levava. As coisas começaram a escurecer e o seu corpo sumia de sua vista. Os olhos de Arlete continuavam cheios de lágrimas e encaravam apreensivos o corpo inerte do esposo. Seu Rangel via no olhar dela que a morte havia chegado e que isso era algo certo e inquestionável; algo do qual reclamação alguma faria diferença.
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