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Mostrando postagens de março, 2019

Se vive vivendo

O que caminhamos define nosso caminho e nosso caminho se faz sempre novo e começa de novo sempre sendo puxado para frente. Nossas experiências nos tornam outra pessoa e desfazem a nossa visão pelo simples fato de sermos e estarmos. Os gestos e os nossos desejos são cópia perfeita do que realmente somos e o que podemos ser na realidade, sendo muitas vezes distantes do nós sentimos e identificamos como sendo ''quem eu sou''. A escolha de viver e de não viver não se pode ser medida pelo simples ato mas sim pelos momentos vividos. Cada detalhe que se esboça e se concretiza nos afasta do que foi sentido instantes antes. Não se vive sem viver. Sempre se vive, sempre. A escolha só muda dependendo da ótica utilizada. Todos estamos vivendo independente do que façamos e observar que os seres se completam e se anulam igualmente é precioso e também belo. É assim que estamos aqui, observando a grandiosidade das coisas e muitas vezes esquecendo-as por completo, sendo inúteis ...

Um começo que se faz

 Todo dia que se passa é cheio de vida e com encantos que se fazem ouvir de dentro das cores das flores. O amor que se encontra em cada gesto é perdido e encontrado nos recantos escuros que abrigam as mais diversas ilusões já criadas. Tudo se molda a partir de um ponto onde as minúcias do prazer são reais e distintas. Nada se desfaz sem que o ápice dos sentimentos se condense em uma única só voz que diz "Viva!'' As luzes de outono me aquecem profundamente e me fazem sentir alegre e radiante. As cores que se desvelam em um único tom cheio de intensidade, não mais faz queimar e isso abrilhanta a vida que existe. As tardes desse tempo tão alegre não se resumem a esperar a noite chegar mas sim o de desejar que todo o momento se resuma ao momento que move-se devagar. Uma tarde eterna de outono, era isso que eu queria. As dores e entoações envolvidas em espasmos sem coordenação e que parecem ouvir um som misterioso não se entendem sem antes sentir. É preciso abrir a ca...

O pedido

   Giovana cuidava do seu pai doente desde que sua mãe havia ido embora de casa, fazia 6 anos. Com seus 26 anos de idade, ela ainda não se sentia pronta para encarar as responsabilidades da vida adulta. Mesmo assumindo os cuidados de seu pai, parecia que tudo mais era muito mais do que ela podia fazer. Sempre que pensava em dar um passo adiante, a imagem do seu pai preso à uma cama a assombrava e diluía qualquer tipo de determinação que ela poderia ter.   A doença do seu pai já começava a deteriorar sua memória e muitas vezes ele nem a reconhecia. Os ataques de agressividade estavam cada vez mais recorrentes, e a distância de sua casa em relação às outras na mesma rua não ajudava muito na hora de pedir ajuda. Na cabeça de Giovana seu pai era uma grande provação que Deus havia permitido em sua vida, e se ela conseguisse ultrapassar esse desafio, conseguiria finalmente se ver livre daquele lugar.    Desde os dez anos de idade ela sempre odiou tudo que en...

Carta

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Olá Primo Kabir, Como vai?   Estive sozinho desde o dia em que meus pais morreram a muito tempo atrás e isso acabou por fazer parte da minha vida. A solidão não me incomodava muito a não ser pelos dias onde todos se reuniam e comemoravam uma data especial como o natal, por exemplo. Os dias se passavam com um ar melancólico e eu lembrava do tempo em que vivi nas terras áridas. Um dia fui uma criança muito feliz e que tinha amigos, mas esse tempo realmente se foi. Logo quando nos mudamos para esse lindo lugar de florestas, campos e rios, meus pais se foram e deixaram um vazio que eu por muito tempo achei que não iria suportar.   Talvez eu seja diferente da maioria das pessoas que conheço ou talvez eu negue que eu seja tão comum como todo mundo. A verdade é que não tenho certeza ao certo se sou apenas rabugento ou gênio incompreendido, isso realmente fez parte dos meus pensamentos durante vários anos. Agora o que resta é a certeza de que passarei os últimos dias com a ...

Rotineiro

                                                                                   Joanna trabalhava como coletora fazia vinte e cinco anos. Seus cabelos grisalhos revelavam sua idade e seu corpo já dava sinais de cansaço. Em julho ela faria cinquenta anos de idade e isso a deixava muito feliz, mesmo que a ideia de completar meio século a incomodasse um pouco. O trabalho desempenhado por Joanna era um dos menos valorizados e um dos mais importantes dentro das sociedades paralelas. Basicamente, ela coletava os corpos de pessoas mortas em qualquer ambiente no qual a morte  ocorresse; daí o cansaço e as dores enventuais nos joelhos. Sua roupa com proteção e de cor chumbo era larga o suficiente para que seus movimentos fossem livres para o trabalho pesado. Essa era a vid...