O pedido
Giovana cuidava do seu pai doente desde que sua mãe havia ido embora de casa, fazia 6 anos. Com seus 26 anos de idade, ela ainda não se sentia pronta para encarar as responsabilidades da vida adulta. Mesmo assumindo os cuidados de seu pai, parecia que tudo mais era muito mais do que ela podia fazer. Sempre que pensava em dar um passo adiante, a imagem do seu pai preso à uma cama a assombrava e diluía qualquer tipo de determinação que ela poderia ter.
A doença do seu pai já começava a deteriorar sua memória e muitas vezes ele nem a reconhecia. Os ataques de agressividade estavam cada vez mais recorrentes, e a distância de sua casa em relação às outras na mesma rua não ajudava muito na hora de pedir ajuda. Na cabeça de Giovana seu pai era uma grande provação que Deus havia permitido em sua vida, e se ela conseguisse ultrapassar esse desafio, conseguiria finalmente se ver livre daquele lugar.
Desde os dez anos de idade ela sempre odiou tudo que envolvia aquela vila. As pessoas dali e até mesmo o motivo pelo qual se mudaram fazia com que ela se sentisse totalmente deslocada e solitária em qualquer lugar que estivesse. Vinda de um bairro de classe média alta, sentindo falta de seus amigos e da realidade que estava acostumada, se adaptar a um lugar onde todos a viam como mais uma menina mimada não ajudava a se enturmar. Seu pai perdera o negócio que tinha no centro da cidade e as economias da família foram pro ralo. A única coisa que ele pode adquirir com o dinheiro fora uma casa de dois andares no fim de uma rua quase que deserta à beira de uma grande lagoa; ''um lugar tipicamente decadente'', como dizia sua mãe.
Aliás, sua mãe era realmente um de seus problemas. Mesmo que tenha sempre estado por perto, Giovana não sentia que sua própria mãe se importava mais com ela do que se importava com um sapato ou uma das jóias que ela conseguiu manter no cofre. Era difícil decifrar o que se passava na cabeça de seus pais e na maioria das vezes ela se encontrava sozinha em casa durante fins de semana inteiros.
A doença veio como uma surpresa desagradável, fazendo com que o pouco que existia e que podia ser considerado uma família, acabasse totalmente. O amor de sua mãe não era o suficiente para aguentar um marido doente que não a tratava bem e uma filha que parecia sofrer de algum mal não diagnosticado. Giovana não culpava sua mãe, mas sempre achou que seus pais eram duas pessoas desprezíveis, nada de diferente poderia sair dali.
Os últimos meses pareciam ter sido os mais difíceis desde o início do tratamento e seu pai já havia sido avisado de que não viveria mais do que seis meses. Três meses se passaram desde o resultado dos últimos exames e realmente a previsão apontava para a morte de seu pai. Giovana estava se preparando para o dia em que iria acordar e veria seu pai morto em cima da cama e isso realmente não a deixava tão triste quanto deveria estar.
Seu pai praguejava todas as vezes que tinha que tomar o remédio e quando a comida não estava do seu agrado ele simplesmente derrubava o prato por cima da roupa de cama, fazendo um bagunça enorme. Nesses momentos, a vontade de Giovana era de bater em seu pai com o prato de comida até que ele ficasse desacordado, mas o próprio pensamento a fazia tremer pois ela sabia que isso seria algo abominável. O tratamento que ela recebia com certeza se dava pelo fato de seu pai transferir toda a raiva que sentia da sua mãe para ela. O mesmo acontecia com sua mãe, que sabendo das várias puladas de cerca do marido, acabara por agir com frieza e distanciamento em relação à própria filha. Giovana se encontrava vulnerável em meio aos dois.
A semana foi de chuva e de muito vento naquela região e todas as goteiras da casa pareciam ter dado crias. O pai de Giovana estivera calado durante todos os dias e se comunicava apenas com gestos fracos e grunhidos. Era sábado e o tempo parecia ter se firmado mesmo com as nuvens ainda pairando no céu. Enquanto dava a comida com uma colher ao seu pai, seus pensamentos estavam mais distantes do que nunca. Ela já havia se acostumado a atitude de indiferença que seu pai tinha para com ela e não fazia mais questão de puxar assunto. Quando já se preparava para sair do quarto em direção à cozinha, o pai de Giovana perguntou: ''O que você quer para o seu futuro, filha?''
Aquela pergunta a acertou em cheio. Não sabia o motivo e se realmente a resposta queria ser ouvida pelo homem que a questionara. ''Eu quero cuidar de você até que o Senhor melhore.'' Essa resposta parecia falsa até para ela. ''Quero que me responda com sinceridade!'' Seu pai respondeu com o tom de voz já alterado, como de costume. ''Eu não sei o que quer que eu diga meu pai''. Giovana agora estava totalmente virada de frente para o seu pai e percebia que o olhar daquele homem de 60 anos de idade se concentrava com toda força em seus próprios olhos. ''Eu quero te pedir uma coisa. Uma coisa que tenho pensado muito durante muito tempo. Mas quero que prometa que vai pensar sobre isso e que vai se colocar em meu lugar''. No mesmo instante os pensamentos de Giovana ficaram confusos e várias perguntas surgiram em sua mente.
''Pode dizer pai''. Ela respondeu tentando transparecer o máximo de serenidade possível em seu tom de voz. ''Bem, eu andei pensando em tudo que já fiz você passar. O que eu fiz com certeza me colocou nesse estado, eu disso. Toda noite tenho pesadelos imaginando todas as coisas terríveis que podem acontecer comigo se eu esperar até o último momento em cima dessa cama. As dores na verdade já têm me tirado sono e sei que isso tudo vai piorar''. O pai dela se deteve durante um momento, como se escolhesse as palavras certas. ''Eu não quero sofrer agonizando durante os últimos dias, Giovana. Eu preciso que considere usar os meus próprios remédios de dor para dar um fim a esse sofrimento. Minhas crenças me impedem fazer isso eu mesmo. Faça isso por mim minha filha, me mate, eu te peço.''
Um buraco se abriu por debaixo dos pés de Giovana e todas as palavras do seu pai pesaram como chumbo em seu coração. Mesmo que fosse algo real e concreto, parecia que tudo aquilo fazia parte de um pesadelo. Sua mente fervilhava com pensamentos obscuros e coisas que voltaram à tona de uma só vez. Pelo menos uma vez na vida, o seu pai havia reconhecido sua culpa e estava pedindo ajuda, será que ela seria capaz de realizar seu desejo?
Comentários
Postar um comentário