Rotineiro
Joanna trabalhava como coletora fazia vinte e cinco anos. Seus cabelos grisalhos revelavam sua idade e seu corpo já dava sinais de cansaço. Em julho ela faria cinquenta anos de idade e isso a deixava muito feliz, mesmo que a ideia de completar meio século a incomodasse um pouco. O trabalho desempenhado por Joanna era um dos menos valorizados e um dos mais importantes dentro das sociedades paralelas. Basicamente, ela coletava os corpos de pessoas mortas em qualquer ambiente no qual a morte ocorresse; daí o cansaço e as dores enventuais nos joelhos. Sua roupa com proteção e de cor chumbo era larga o suficiente para que seus movimentos fossem livres para o trabalho pesado. Essa era a vida de Joanna, uma coletora do décimo jubileu após a morte humana em massa.
Aquela manhã estava igual a todas as outras. Joanna recebeu sua refeição pelos entregadores oficiais e comeu vagarosamente, como de costume. Ela só saía pra trabalhar quando seu primeiro pedido de coleta era feito e isso demorava a acontecer nos fins de semana. Ela trabalhava todos os dias do ano. Sem exceções. Vinte minutos após se arrumar e estar pronta sentada em seu banco de espera fora de seu cubículo dormitório, Joanna recebeu uma mensagem de solicitação em sua FCI; que era uma sigla importante para uma tela em que ela controlava as tarefas diárias e semanais. A solicitação dizia: “Bom dia, Joanna. Uma coleta te aguarda no distrito nível inferior 57. Você precisa realizar o serviço em três horas. Está liberada para sair.” No mesmo momento, Joanna e sua amiga de um dormitório cubículo situado 37 unidades á direita, saiu com o conjunto propulsor de seu banco de espera. Os cubículos eram duas grandes fileiras paralelas de sete mil unidades, três mil e quinhentas em cada fileira, as quais eram literalmente sustentadas por inúmeros cabos que vinham da primeira sociedade.
Depois de voar por 15 minutos para baixo, Joanna saudou sua amiga Nicole à distância alegremente, já que ela iria descer para a sociedade basilar e sua amiga havia sido solicitada na sociedade mediana. Joanna era normalmente designada para a sociedade mediana, assim como sua amiga. Porém, algo havia acontecido e seu serviço fazia-se necessário naquele lugar que não era tão amigável assim. A sociedade basilar era composta pelo que era popularmente chamado de “resto das bases”. Mais de 300 milhões de pessoas viviam ali. Era quase toda a população restante no mundo. Ao aterrisar no distrito do nível inferior 57, Joanna mais uma vez pode perceber o motivo pelo qual havia aceitado esse trabalho. Os níveis inferiores não eram bons lugares para se viver.
Cada nível mantinha uma plataforma de entrada em sua via principal e sendo um domingo qualquer de inverno, não haveria ninguém para vê-la chegar. Isso era ótimo para Joanna, já que desde o ocorrido de cinco anos atrás, ela passou a utilizar a cobertura refratora para se tornar ''invisível'' quando entrava em níveis conhecidos por sua violência e hostilidade. Tudo parecia calmo e a via principal estava deserta. O FCI informou a localização do corpo e informou que ainda restavam duas horas e cinco minutos para a finalização da tarefa. Joanna demorou a entender claramente a razão para que as missões tivessem um tempo determinado, porém descobriu na prática que o motivo eram as tempestades de areia do nível terreno. Os corpos sempre eram levados para lá e a viagem até lá embaixo não era muito confortável. Os ventos e a atmosfera que passara a ser totalmente tóxica e até certo ponto corrosiva, fazia com que os coletores sofressem bastante para alcançar os depósitos incineradores.
Depois de andar cerca de 10 minutos sem a proteção refratora, Joanna ouviu um barulho vindo de uma das várias ruas sem saída com pouca iluminação que compunham todos os níveis basilares. Como estava no nível 57, a sua preocupação não era tão grande pois sabia que aquele era um dos primeiros níveis dos últimos 60 níveis da sociedade basilar. O perigo realmente não estava ali, pelo menos era o que ela pensava. Mais a frente, O FCI informou que o protocolo 27 deveria ser adotado para a coleta desse corpo. Os protocolos definiam quais eram os procedimentos a serem adotados em relação à cada situação específica. Como o nível em que ela estava era um nível comercial, a morte ali provavelmente teria sido causada por briga de bar ou a cobrança de uma dívida, que havia ido longe demais. Contudo, os coletores nunca eram informados sobre o motivo das mortes.
Joanna estava a 5 metros do corpo e na verdade já podia ver o homem que se encontrava caído em frente ao balcão de um bar na via transversal D. Os vestígios de sangue vinham de uma rua sem saída, o que a fez pensar que o corpo havia sido arrastado por alguém até ali. Joanna ligou sua proteção refratora, esse era o procedimento quando um coletor encontrava qualquer indício de que uma cena de crime havia sido manipulada. Quando estava a menos de um metro do corpo o cheiro era insuportável, até mesmo para uma coletora experiente como Joanna. Depois de acionar o modo drone do FCI para registrar a coleta, ela retirou da bolsa a compressora retrátil que era necessária para cumprir os procedimentos do protocolo 27.
A compressora demorava 15 minutos para fazer seu trabalho de compressão do corpo e esse era um tempo considerado relativamente longo pelos próprios coletores, o que gerava inúmeras notificações de reclamação todos os meses, mas é claro que nada era feito. O FCI então informou em seu visor que faltavam uma hora e meia para finalizar o serviço. Joanna escutou um barulho, mas desta vez ela se sentiu vulnerável, como se alguém estivesse a observando. Aquele nível deveria estar totalmente vazio aquela hora. Os níveis comerciais e os de trabalho eram fechados meia-noite e reabertos às seis da manhã; o relógio marcava cinco e quarenta e cinco. A compressora finalmente terminou o trabalho. Joanna guardou o material e se preparou para suspender a bolsa que carregava o corpo, que por sinal estava extremamente pesada. Esse era um dos motivos pelos quais as compressoras eram tão odiadas. Porém os coletores em geral já estavam acostumados ao peso dos corpos e normalmente davam conta de carregar os corpos majoritariamente subnutridos que eram encontrados.
Cada nível mantinha uma plataforma de entrada em sua via principal e sendo um domingo qualquer de inverno, não haveria ninguém para vê-la chegar. Isso era ótimo para Joanna, já que desde o ocorrido de cinco anos atrás, ela passou a utilizar a cobertura refratora para se tornar ''invisível'' quando entrava em níveis conhecidos por sua violência e hostilidade. Tudo parecia calmo e a via principal estava deserta. O FCI informou a localização do corpo e informou que ainda restavam duas horas e cinco minutos para a finalização da tarefa. Joanna demorou a entender claramente a razão para que as missões tivessem um tempo determinado, porém descobriu na prática que o motivo eram as tempestades de areia do nível terreno. Os corpos sempre eram levados para lá e a viagem até lá embaixo não era muito confortável. Os ventos e a atmosfera que passara a ser totalmente tóxica e até certo ponto corrosiva, fazia com que os coletores sofressem bastante para alcançar os depósitos incineradores.
Depois de andar cerca de 10 minutos sem a proteção refratora, Joanna ouviu um barulho vindo de uma das várias ruas sem saída com pouca iluminação que compunham todos os níveis basilares. Como estava no nível 57, a sua preocupação não era tão grande pois sabia que aquele era um dos primeiros níveis dos últimos 60 níveis da sociedade basilar. O perigo realmente não estava ali, pelo menos era o que ela pensava. Mais a frente, O FCI informou que o protocolo 27 deveria ser adotado para a coleta desse corpo. Os protocolos definiam quais eram os procedimentos a serem adotados em relação à cada situação específica. Como o nível em que ela estava era um nível comercial, a morte ali provavelmente teria sido causada por briga de bar ou a cobrança de uma dívida, que havia ido longe demais. Contudo, os coletores nunca eram informados sobre o motivo das mortes.
Joanna estava a 5 metros do corpo e na verdade já podia ver o homem que se encontrava caído em frente ao balcão de um bar na via transversal D. Os vestígios de sangue vinham de uma rua sem saída, o que a fez pensar que o corpo havia sido arrastado por alguém até ali. Joanna ligou sua proteção refratora, esse era o procedimento quando um coletor encontrava qualquer indício de que uma cena de crime havia sido manipulada. Quando estava a menos de um metro do corpo o cheiro era insuportável, até mesmo para uma coletora experiente como Joanna. Depois de acionar o modo drone do FCI para registrar a coleta, ela retirou da bolsa a compressora retrátil que era necessária para cumprir os procedimentos do protocolo 27.
A compressora demorava 15 minutos para fazer seu trabalho de compressão do corpo e esse era um tempo considerado relativamente longo pelos próprios coletores, o que gerava inúmeras notificações de reclamação todos os meses, mas é claro que nada era feito. O FCI então informou em seu visor que faltavam uma hora e meia para finalizar o serviço. Joanna escutou um barulho, mas desta vez ela se sentiu vulnerável, como se alguém estivesse a observando. Aquele nível deveria estar totalmente vazio aquela hora. Os níveis comerciais e os de trabalho eram fechados meia-noite e reabertos às seis da manhã; o relógio marcava cinco e quarenta e cinco. A compressora finalmente terminou o trabalho. Joanna guardou o material e se preparou para suspender a bolsa que carregava o corpo, que por sinal estava extremamente pesada. Esse era um dos motivos pelos quais as compressoras eram tão odiadas. Porém os coletores em geral já estavam acostumados ao peso dos corpos e normalmente davam conta de carregar os corpos majoritariamente subnutridos que eram encontrados.
Quando anexava a mala com o corpo à sua estrutura auxiliar traseira, Joanna escutou um grito que mais parecia ter saído de um pesadelo. ''- Corre, coletora!''. No mesmo momento ela recebeu uma mensagem no visor do FCI que dizia: ''Alerta de pessoas no quadrante imediato. Siga o mais rápido possível para a plataforma da entrada. O corpo tem importância 6F''. Agora tudo fazia sentido, o corpo era de uma pessoa importante ou de alguém que gerava algum tipo de conflito para um número considerável de pessoas. Começando a se movimentar o mais rápido possível sem correr, Joanna escutou barulhos vindos dos dois lados, eram pessoas correndo e que com certeza estavam atrás dela.
Não havia motivo para desespero pois a proteção refratora contava também com a projeção holográfica estratégica, o que fazia os coletores despistarem qualquer um em pouco. Caminhando os mais rápido possível e por ruas estreitas, Joanna em nenhum momento olhava para trás. Além de ser a orientação do procedimento padrão, isso daria a chance para que os perseguidores a vissem, já que a projeção holográfica estratégica só funcionava enquanto o coletor referencial se movia. Essa era outra característica que gerava uma grande insatisfação. Os sons das pessoas já estava distante e ela já se encontrava a 500 metros da plataforma principal. faltavam 3 minutos para a abertura do nível e isso significava que tudo ia funcionar perfeitamente. Quando Joanna dobrou à direita em direção à via principal, três homens apareceram logo em frente bloqueando sua passagem. Cada um deles utilizava um óculos de percepção térmica arcaico e que provavelmente fora recuperado de algum aterro terrestre. Mas como isso havia acontecido? Joanna não fazia ideia.
Imediatamente Joanna fez uso da arma pacificadora que emitia uma onda de choque o suficiente grande para derrubar os três homens. Foi aí que ela teve uma surpresa desagradável: aquelas eram representações holográficas referenciais e sua localização havia sido revelada ao disparar a onda elétrica. Os três homens, agora os de verdade, saíram por de trás da coletora e rapidamente a imobilizaram segurando seus braços. Um outro homem apareceu e utilizou o FCI para liberar a mala com o corpo da estrutura e como em um piscar de olhos a golpearam tão forte na cabeça que ela não pode ver mais nada.
Joanna acordou 40 minutos depois em meio a via principal, sem nenhum equipamento e totalmente nua. As pessoas iam e vinham como se aquilo fosse a coisa mais comum de todas e ninguém nem mesmo olhava para ela. Foi assim que Joanna percebeu que estava perdida. E isso era só o começo da história.
Não havia motivo para desespero pois a proteção refratora contava também com a projeção holográfica estratégica, o que fazia os coletores despistarem qualquer um em pouco. Caminhando os mais rápido possível e por ruas estreitas, Joanna em nenhum momento olhava para trás. Além de ser a orientação do procedimento padrão, isso daria a chance para que os perseguidores a vissem, já que a projeção holográfica estratégica só funcionava enquanto o coletor referencial se movia. Essa era outra característica que gerava uma grande insatisfação. Os sons das pessoas já estava distante e ela já se encontrava a 500 metros da plataforma principal. faltavam 3 minutos para a abertura do nível e isso significava que tudo ia funcionar perfeitamente. Quando Joanna dobrou à direita em direção à via principal, três homens apareceram logo em frente bloqueando sua passagem. Cada um deles utilizava um óculos de percepção térmica arcaico e que provavelmente fora recuperado de algum aterro terrestre. Mas como isso havia acontecido? Joanna não fazia ideia.
Imediatamente Joanna fez uso da arma pacificadora que emitia uma onda de choque o suficiente grande para derrubar os três homens. Foi aí que ela teve uma surpresa desagradável: aquelas eram representações holográficas referenciais e sua localização havia sido revelada ao disparar a onda elétrica. Os três homens, agora os de verdade, saíram por de trás da coletora e rapidamente a imobilizaram segurando seus braços. Um outro homem apareceu e utilizou o FCI para liberar a mala com o corpo da estrutura e como em um piscar de olhos a golpearam tão forte na cabeça que ela não pode ver mais nada.
Joanna acordou 40 minutos depois em meio a via principal, sem nenhum equipamento e totalmente nua. As pessoas iam e vinham como se aquilo fosse a coisa mais comum de todas e ninguém nem mesmo olhava para ela. Foi assim que Joanna percebeu que estava perdida. E isso era só o começo da história.
Comentários
Postar um comentário