Perspectiva


A tarde daquele domingo seguia o seu caminho natural, sem muitos acontecimentos importantes. O menino andava pelas ruas do bairro procurando algo para fazer ou com quem brincar, sem sucesso. As nuvens no céu revelavam que a chuva chegaria ainda naquele dia. O barulho de motos e de pessoas conversando dentro de seus quintais era como uma trilha sonora que pecava pela falta de originalidade. O menino seguia andando pela rua, sabia que se voltasse para casa seria pior, apenas assistiria à TV ou brincaria com seu irmão mais novo, e isso ele não queria. Além de também encontrar o seu pai, que todo fim de semana bebia e arranjava confusão com sua mãe.

Ao se aproximar de uma bifurcação, o menino escolheu o caminho que não dava em lugar nenhum e seguiu em frente. Aquele trecho era ladeado por cercas que limitavam campos extensos onde tudo que podia ser visto era a grama. Momentos como esse, já eram muito raros em sua rotina. Ele já não costumava brincar na rua e mudara de escola fazia pouco tempo. Ultimamente não tinha mais tempo para os amigos de sua rua e isso o deixava triste. Junto com todas essas coisas havia o problema de seu pai e como sua mãe reclamava de todos os problemas que estava passando. O menino só precisava de um momento sozinho em que não estivesse tão perto de todas aquelas coisas; era tudo muito sufocante.

Ele então decidiu passar pela cerca de arame farpado e andou até chegar a um ponto alto de um morro que ficava distante. Quando alcançou o topo, o menino se sentou a beira do que parecia um precipício, pois ali era o limite de algo que parecia um paredão. Lá embaixo o menino podia ver alguns bois e umas vacas pastando, tudo parecia estar se movendo em câmera lenta, era sublime. O silencio era pleno e a brisa que pouco a pouco ficava mais forte não fazia o menino ficar com medo. Ali de cima daquele morro que devia ter trinta metros de altura, os animais que estavam tão afastados pareciam totalmente imersos em sua realidade. Era esse o motivo que fazia o menino ir para aquele campo. O sentimento de que de longe, todos aqueles problemas eram muito pequenos e que ele podia viver independente deles; era o que dava forças para que ele seguisse. Por um momento o menino sentiu tamanha alegria e percebeu que assim como aqueles animais que observava, sua vida fazia parte de algo muito maior. Naquele dia ele voltaria para casa mais uma vez com a certeza de que ele era apenas uma folha de grama em um gigantesco campo, e isso não era algo ruim.

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