Carta
Querida filha, lembra desse dia? Nós nos divertimos muito nessas férias, não foi?
Te escrevo esse recado como forma de mais um adeus, pois sei que no últimos momentos sempre estivemos juntas e isso é algo pelo qual sou grata. Nossa vida juntas foi de amizade e cumplicidade antes de tudo, mas sei que por ser apenas uma criança, você ainda não entenda tudo o que eu quero te dizer, por isso pedi à sua tia Clara que só te mostre isso quando você for madura o suficiente.
Eu e seu pai sempre vivemos sozinhos e nos conhecemos quando já éramos avançados em idade. Eu fiquei grávida de você quando a maioria dos médicos não recomendaria mais que eu tivesse um filho, mas você veio, e graças a Deus que você veio! Eu não imaginaria que eu teria uma filha tão inteligente e cheia de bondade como você. Mas o motivo dessa carta não é o de reforçar as qualidades que eu sempre reconheci em você. Preciso te dizer uma coisa que talvez seja muito difícil, mas é necessária. O que preciso te contar diz respeito ao seu nascimento, mas não te define como pessoa, lembre-se disso.
Eu e sei pai estávamos tentando engravidar e eu não conseguia, pois já tinha quarenta anos de idade. Como seu pai era ainda mais velho, sabíamos que não conseguiríamos ter um filho, isso era certo. Foi quando conhecemos um vizinho que passava os verões em Windenburg e que era de Glimmer Brook. As pessoas sempre falavam coisas absurdas desse lugar, coisas essas que eu não acreditava, por puro ceticismo. O nome desse belo rapaz era Ícaro, e ele era sempre muito gentil, oferecendo ajuda com nossa plantação, que demandava cada vez mais trabalho e cuidado. O rapaz sabia do nosso desejo por um filho e eu percebia seu olhar de tristeza quando eu e seu pai passávamos por sua cabana à beira do lago. Ele realmente se importava com a gente, era como se fôssemos os pais que ele nunca teve.
Depois da quarta tentativa nós estávamos decididos a não tentar mais, simplesmente desistimos de ter você, minha querida. Ícaro tinha chegado para mais um verão, e como de costume, fora nos visitar para saber como estávamos e pedir algumas ervas de nossa plantação. Eu me abri para ele e acabei chorando, estava muito abalada com toda aquela situação, era muito desgastante e cansativo. Eu lembro como se fosse hoje, o olhar nos olhos do rapaz, muito vivos e cheios de compaixão, quando ele disse que poderia me ajudar a ter um filho. Eu obviamente duvidei e não entendi bem o que ele queria dizer com aquilo, mas ele me assegurou de que estava falando muito sério e que se eu quisesse o filho de verdade, eu deveria pedir a ele, com a consentimento do seu pai.
Depois de muito pensar sobre o assunto eu e seu pai decidimos ser ajudados pelo jovem, que na verdade era um bruxo, e que ia para Windenburg para aprender feitiços praticados por bruxos da região durante o verão. Eu não quero entrar em detalhes quanto ao que fizemos e nem onde fomos, mas o que veio depois nos deixou surpresos: eu tinha quarenta e sete anos e estava grávida de uma bebê. Os meses se passaram e você cresceu com toda a saúde, mesmo que os médicos nem ao menos entendessem o porquê de eu estar grávida. Foi quando Ícaro nos contou algo que havia ''escondido'' de nós dois. Ele na verdade sempre deixou bem claro que haveriam coisas que daríamos em troca desse favor, mas que não era o momento para que isso fosse revelado. Quando você nasceu, era verão, e mais uma vez o jovem bruxo veio nos visitar, só que dessa vez as notícias não eram tão boas. Ele nos contou que a minha vida seria encurtada por causa dessa gravidez e que eu só veria você como uma criança, depois morreria. No momento em que eu escutei isso, meu sentimento maior foi de ódio, por ter sido enganada daquela forma. Não precisamos mandar ele embora, depois que disse isso, Ícaro simplesmente sumiu e nunca mais foi visto em Windenburg de novo. Eu ainda lembro a expressão em seu rosto, era culpa misturada com profunda tristeza; ele queria fazer algo, mas não podia.
A cada aniversário seu eu envelhecia o equivalente a quatro ou cinco anos, era algo incontrolável e com o qual seu pai não soube lidar. Ele adoeceu logo quando soube que eu morreria, a preocupação o matou, lentamente. Eu conhecia sua tia Clara desde que ela era criança e sabia que ela te amava como uma sobrinha, já que era tão focada em sua carreira de atriz e não tinha pretensão alguma de ter filhos tão cedo. Pedi à ela que cuidasse de você quando eu não estivesse mais aqui e foi o que ela fez.
Eu sei que você pode sentir como se tivesse sido enganada a vida toda, mas não se sinta assim. Todo o amor que seus pais te deram foi real, e sei que as suas tias Clara e Luiza fizeram o mesmo. Eu sempre te amei em todos os momentos e isso foi verdade minha filha. Muitas perguntas devem estar surgindo agora, por isso eu sugiro que procure esse jovem bruxo em Glimmer Brook, ele com certeza ainda vive lá. Não sinta raiva de suas tias e nem do Fernando (espero que ele tenha se casado com a Clara), eles nunca souberam de nada.
Um abraço e um beijo de sua mãe, que amava você, seu pai e as rosas do jardim.
Me desculpe.
Te escrevo esse recado como forma de mais um adeus, pois sei que no últimos momentos sempre estivemos juntas e isso é algo pelo qual sou grata. Nossa vida juntas foi de amizade e cumplicidade antes de tudo, mas sei que por ser apenas uma criança, você ainda não entenda tudo o que eu quero te dizer, por isso pedi à sua tia Clara que só te mostre isso quando você for madura o suficiente.
Eu e seu pai sempre vivemos sozinhos e nos conhecemos quando já éramos avançados em idade. Eu fiquei grávida de você quando a maioria dos médicos não recomendaria mais que eu tivesse um filho, mas você veio, e graças a Deus que você veio! Eu não imaginaria que eu teria uma filha tão inteligente e cheia de bondade como você. Mas o motivo dessa carta não é o de reforçar as qualidades que eu sempre reconheci em você. Preciso te dizer uma coisa que talvez seja muito difícil, mas é necessária. O que preciso te contar diz respeito ao seu nascimento, mas não te define como pessoa, lembre-se disso.
Eu e sei pai estávamos tentando engravidar e eu não conseguia, pois já tinha quarenta anos de idade. Como seu pai era ainda mais velho, sabíamos que não conseguiríamos ter um filho, isso era certo. Foi quando conhecemos um vizinho que passava os verões em Windenburg e que era de Glimmer Brook. As pessoas sempre falavam coisas absurdas desse lugar, coisas essas que eu não acreditava, por puro ceticismo. O nome desse belo rapaz era Ícaro, e ele era sempre muito gentil, oferecendo ajuda com nossa plantação, que demandava cada vez mais trabalho e cuidado. O rapaz sabia do nosso desejo por um filho e eu percebia seu olhar de tristeza quando eu e seu pai passávamos por sua cabana à beira do lago. Ele realmente se importava com a gente, era como se fôssemos os pais que ele nunca teve.
Depois da quarta tentativa nós estávamos decididos a não tentar mais, simplesmente desistimos de ter você, minha querida. Ícaro tinha chegado para mais um verão, e como de costume, fora nos visitar para saber como estávamos e pedir algumas ervas de nossa plantação. Eu me abri para ele e acabei chorando, estava muito abalada com toda aquela situação, era muito desgastante e cansativo. Eu lembro como se fosse hoje, o olhar nos olhos do rapaz, muito vivos e cheios de compaixão, quando ele disse que poderia me ajudar a ter um filho. Eu obviamente duvidei e não entendi bem o que ele queria dizer com aquilo, mas ele me assegurou de que estava falando muito sério e que se eu quisesse o filho de verdade, eu deveria pedir a ele, com a consentimento do seu pai.
Depois de muito pensar sobre o assunto eu e seu pai decidimos ser ajudados pelo jovem, que na verdade era um bruxo, e que ia para Windenburg para aprender feitiços praticados por bruxos da região durante o verão. Eu não quero entrar em detalhes quanto ao que fizemos e nem onde fomos, mas o que veio depois nos deixou surpresos: eu tinha quarenta e sete anos e estava grávida de uma bebê. Os meses se passaram e você cresceu com toda a saúde, mesmo que os médicos nem ao menos entendessem o porquê de eu estar grávida. Foi quando Ícaro nos contou algo que havia ''escondido'' de nós dois. Ele na verdade sempre deixou bem claro que haveriam coisas que daríamos em troca desse favor, mas que não era o momento para que isso fosse revelado. Quando você nasceu, era verão, e mais uma vez o jovem bruxo veio nos visitar, só que dessa vez as notícias não eram tão boas. Ele nos contou que a minha vida seria encurtada por causa dessa gravidez e que eu só veria você como uma criança, depois morreria. No momento em que eu escutei isso, meu sentimento maior foi de ódio, por ter sido enganada daquela forma. Não precisamos mandar ele embora, depois que disse isso, Ícaro simplesmente sumiu e nunca mais foi visto em Windenburg de novo. Eu ainda lembro a expressão em seu rosto, era culpa misturada com profunda tristeza; ele queria fazer algo, mas não podia.
A cada aniversário seu eu envelhecia o equivalente a quatro ou cinco anos, era algo incontrolável e com o qual seu pai não soube lidar. Ele adoeceu logo quando soube que eu morreria, a preocupação o matou, lentamente. Eu conhecia sua tia Clara desde que ela era criança e sabia que ela te amava como uma sobrinha, já que era tão focada em sua carreira de atriz e não tinha pretensão alguma de ter filhos tão cedo. Pedi à ela que cuidasse de você quando eu não estivesse mais aqui e foi o que ela fez.
Eu sei que você pode sentir como se tivesse sido enganada a vida toda, mas não se sinta assim. Todo o amor que seus pais te deram foi real, e sei que as suas tias Clara e Luiza fizeram o mesmo. Eu sempre te amei em todos os momentos e isso foi verdade minha filha. Muitas perguntas devem estar surgindo agora, por isso eu sugiro que procure esse jovem bruxo em Glimmer Brook, ele com certeza ainda vive lá. Não sinta raiva de suas tias e nem do Fernando (espero que ele tenha se casado com a Clara), eles nunca souberam de nada.
Um abraço e um beijo de sua mãe, que amava você, seu pai e as rosas do jardim.
Me desculpe.

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