Devaneio

No momento em que Lúcia percebeu que aquilo tudo iria se repetir mais uma vez, ela desistiu de tentar entender o motivo. Marcos não queria ajuda, não da forma como ela pensava que ele queria. O comportamento autodestrutivo agora fazia sentido, o que não fazia com que as coisas fossem mais fáceis, de forma alguma.
Lúcia decidiu não contar para ninguém sobre o que havia acontecido na última sexta-feira pois ainda sentia amor pelo seu marido. Amor esse que ela pensava agora não ser algo saudável e nem mesmo poderia ser chamado assim; talvez dependência seria a palavra certa. Só que infelizmente foi essa a forma com que Lúcia conseguiu lidar com a perda do filho do casal. A norte de uma criança não traz sentimentos bons de forma alguma. É como se uma promessa muito importante tivesse sido feita, e não sendo cumprida, ainda deixasse um grande "e se" pairando no ar.
Outro motivo para Lúcia não querer denunciar o seu marido por agressão, se baseou na ameaça clara que ele fez a ela. Se ela contasse alguma coisa, ele disse, "Eu não sei o que eu seria capaz de fazer". Era triste que isso tivesse saído da boca do homem que um dia ela havia admirado tanto. A verdade é que nada foi como era antes do acidente. O menino se afogou na piscina da antiga casa, que foi colocada à venda rapidamente pois as memórias eram muito fortes e dolorosas. 
Aquele dia foi o último dia da antiga vida de Lúcia. Uma vida cheia de alegrias e de conquistas que findou com um momento de descuido, enquanto o casal caiu no sono depois de beber muito no churrasco de domingo. A casa vazia no início da noite estava muito silenciosa, e o sono tomou conta de forma arrebatadora. O menino acordou e foi brincar. Com três anos de idade, é fácil que o desequilíbrio aconteça, mas a mão de um adulto é crucial nessas horas. A mão não se fazia presente, não naquele momento.
A culpa havia sido dos dois, Lúcia sabia disso. Mas por algum motivo isso não era tão claro para Carlos. As discussões sempre revelavam um ressentimento que fazia com que ela se perguntasse por que foi tão fraca. Isso não estava certo. Nunca mais ficaria alcoolizada de novo, era essa a resolução que era esperada também de seu marido; porém isso não aconteceu. O eventual passou de habitual rapidamente para o diário. Era como se um pesadelo fosse um sonho distante daquela realidade.
O próximo passo dependeria de coragem, mas uma quantidade que talvez ela não tivesse mais dentro de si. Carlos não era mais o mesmo, Lúcia também não era mais aquela mulher de antes. Tudo mudou. O amor que ela tinha pelo marido continuou o mesmo; por que então ela deixaria ele pra trás? Era o que passava em sua mente. Carlos era a única pessoa que podia entender bem o que acontecia, pois ele carregava a culpa, mesmo que negando, em suas costas. Ela daria mais uma chance pra ele, não iria acontecer de novo, o homem bom que ela conhecia ainda existia. Enxugando as lágrimas do seu rosto com o pano de prato e tentando afastar os pensamentos tristes da própria cabeça, Lúcia retirou a carne assada do forno e chamou o marido pro almoço de domingo.

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