Lucidez




Era o momento propício para que ele continuasse a montar os padrões dentro de sua mente. O calor era insuportável, e a noite parecia se arrastar junto com os minutos que nunca passavam. A cada respiração, Carlos lembrava do que deveria fazer. O momento era esse, ele precisava contar aquilo que tinha visto, mas como? A verdade é que nem ele sabia como faria isso. O dia tinha sido intenso demais para que as coisas fizessem sentido e esse era tempo que ele tinha sozinho; um tempo de desespero e confusão.

Aos doze anos, Carlos sabia que não era um menino normal, ele pensava demais nas coisas. Tudo que vinha a sua mente era excessivamente detalhado e muitas vezes confuso, e sua visão era afetada por aquilo que ele pensava. O menino podia ver o que quisesse em sua frente, ele só precisava mentalizar o que queria ver. Isso se tornou um problema somente quando ele não conseguia controlar mais as visões, era como se agora todas elas aparecessem sem ser convidadas, não havia mais um click onde tudo passava a funcionar como mera visão passageira. Foi aí que Carlos pensou em pedir ajuda a seus pais, mas o medo foi muito maior do que qualquer coisa, ele não conseguia falar. O medo maior era o de ser internado em um manicômio, talvez até sendo levado a força. Isso ele não queria. Decidiu então, ficar calado.

Cinco pessoas diferentes passaram por ele essa tarde e Carlos precisava lembrar quem era cada uma. Não conseguia. O quarto com as luzes acesas e a televisão com o sol alto, ajudavam a concentração afastando as vozes que gritavam ao seu ouvido quando o silêncio tomava conta de tudo. Era difícil saber quem havia cruzado seu caminho, pois ultimamente ele enxergava seu pai em todas as pessoas que cruzava. O câncer tirou a vida do homem que tinha sido sempre um grande exemplo para ele, e os últimos meses foram um desafio para a doença de Carlos. Agora com trinta anos, todos sabiam de sua condição, mas isso não tornava o fato mais fácil de aceitar. A verdade é que sua mãe ainda tentava fazer com que ele voltasse pra casa e vivesse com ela.

O Telejornal da manhã anterior mostravam o rosto de um criminoso que estuprava mulheres solteiras e que viviam na cidade onde Carlos residia. A polícia estava à procura do homem que acreditava ter sido responsável pela morte de uma das mais de quinze mulheres que ele havia violentado. Carlos assistiu às imagens que foram gravadas por uma câmera de segurança de um bar, que mostrava o criminoso vestido com um casaco de capuz verde e calças jeans, mas o rosto, era o de seu pai. O noticiário informou que a polícia sabia que o assassino se encontrava pelas redondezas e esperava a contribuição com qualquer que fosse a informação.

Lembrar do rosto daquele homem que estava parado atrás daquela caçamba de entulhos, seria difícil. Carlos tinha certeza de que o homem que viu era o da reportagem. As roupas eram as mesmas e a forma como a pessoa se escondia, tentando passar despercebida, era um indício. O caminho onde o suspeito foi visto era uma rua por onde quase ninguém passava. Era um caminho estreito onde de um lado, vários prédios comerciais tinham suas entradas para abastecimento; do outro lado havia um galpão desativado que se estendia por toda a rua.

Agora Carlos pensava que era melhor ter ligado pra polícia na hora em que viu o homem suspeito, mas ninguém iria acreditar se ele dissesse que não conseguia descrever o sujeito ou que o rosto do criminoso era idêntico ao de seu pai. A mente confusa de Carlos às vezes dava flashs do que realmente acontecia, ele só precisava relaxar e deixar acontecer. O sono ajudava e foi por isso que ele tentou dormir para que talvez a resposta viesse em forma de sonho. 

Os mosquitos zumbiam no ouvido de Carlos e o ventilador só fazia com que o ar quente se movimentasse, sem nenhum refresco. Mesmo com o ambiente desfavorável, o cansaço fez com que a escuridão e o sono tomassem conta da mente e do corpo dele. 

Já adormecido, o sonho trouxe Carlos mais uma vez para o momento onde viu o homem, passando por entre os entulhos que se espalhavam também pelo entorno da caçamba. O homem agora não se intimidou com a presença inesperada de Carlos, ele vinha em sua direção. Os passos firmes de agora, constrastavam com a incerteza de outrora, sendo quase um convite a começar a se afastar. Carlos simplesmente não se movia, ele não conseguia dar um passo de onde estava. O homem com rosto de seu pai já se encontrava a menos de dois metros de distância e andando em velocidade chegou bem perto de Carlos. - Eu sei quem você é - disse o homem para Carlos. E logo após dizer isso, o sujeito tirou um canivete de seu bolso, fazendo com que a Carlos reagisse com terror. 

O homem manuseava a lâmina em direção ao próprio pescoço e por fim começou a cortar o seu rosto lentamente. Carlos não podia acreditar no que estava vendo, o rosto de seu pai agora parecia estar muito mais real do que antes. O sangue que agora corria pelo pescoço e peitoral do homem, já deixava tudo encharcado. Era como se ele quisesse retirar a pele de sua própria face. Por mais que Carlos quisesse se mover, ele não conseguia. Foi aí que o terror tomou conta de tudo. A pessoa que estava a sua frente tentava arrancar a pele cortada do rosto, mas o que havia por baixo não era músculo ou tecidos de pele cheia de sangue, era um outro rosto. 

Com o canivete já no chão o homem continuava a puxar toda a pele do que antes havia formado o rosto do pai de Carlos. O aspeto de uma máscara de borracha podia ser comparado ao que era visto; a diferença era que o sangue formava agora poças no chão. Por baixo da pele que ia sendo rasgada, o homem revelava a identidade que tanto interessava Carlos, que em sua posição soava dos pés a cabeça. Em um momento de desespero porém, a visão que se apresentava era difícil de acreditar, o rosto que se revelava era o de Carlos! O homem, com seu rosto idêntico ao do homem que observava a tudo, terminou de arrancar sua "máscara" e gritou bem perto do ouvido de Carlos: - Eu sei quem você é! Eu sou você! 

Carlos acordou no mesmo instante com a respiração acelerada, o corpo banhado em suor. Ao se levantar, percebeu que não havia ligado às luzes do apartamento quando chegara. Foi em direção ao interruptor e depois encheu um copo d'água na torneira da pia. Enquanto bebia, seus olhos circundaram o pequeno ambiente que vivia, até que ficaram presos em um grande espelho que ele havia instalado ao lado em uma das portas do armário que ficava ao lado da cama. O homem que Carlos via usava um casaco de capuz verde e Jeans, e o rosto, que sorria de forma doentia, era idêntico ao seu próprio rosto.

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