Colega
Tudo parecia estar bem com Luciana, mas na verdade o que havia acontecido há dois anos atrás, acabou com qualquer perspectiva de um futuro feliz. O aborto espontâneo seguido de uma separação foi o suficiente pra mudar a vida dela completamente e as pessoas a olhavam com um olhar de pena na grande maioria das vezes. Quando o assunto não tratava da necessidade de uma ''volta por cima'', era aquele velho discurso de ''sinto muito'' que a deixava mais triste ainda. Cada dia a esperança de coisas melhores parecia se distanciar muito mais, decretando em sua vida uma morte precoce.
Os últimos meses pareciam nuvens que cobriam seu entendimento, já que não se lembrava de muitas que coisas que aconteceram durante o período. As atividades que levava para casa do trabalho ocupavam os seus dias de folga e ajudavam a esquecer sua condição irreparável. O sentimento de culpa por estar desperdiçando mais um fim de semana com tarefas que facilmente poderiam ser resolvidas no escritório não superava a angústia que vinha misturada com a sensação constante de perda. Uma marca havia sido feita em seu ser desde que descobrira que o seu filho não estava mais ali. Era como se algo que ela já possuía há muito, tivesse sido tirado dela sem a menor consideração. O sofrimento que veio após fez com que seu cônjuge não suportasse o fato de ser colocado pra fora do seu mundo. Luciana queria esquecer que a culpa pelo seu divórcio era algo inegável.
Os convites para churrasco e ate mesmo as visitas de amigas eram frequentes e mesmo assim o sentimento de solidão se aprofundava cada vez mais. As sessões com o terapeuta não estavam ajudando muito, simplesmente por que Luciana não queria aceitar o que aconteceu. O seu maior sonho sempre fora ter um filho e admitir que aquilo havia acontecido e seguir em frente, não era uma opção para ela. Depois de um tempo ela parou de mencionar suas crises mais graves aos amigos. As mesmas falas de apoio, que agora para ela soavam vazias e inefetivas, já causavam mais dor do que o silêncio ou uma conversa superficial sobre a última festa da firma. Ela começou a criar uma aparência de que tudo ia bem, mesmo não sendo essa a verdade.
Os pensamentos de suicídio começaram uma semana antes do aniversário de morte de seu bebê. A solidão e os momentos de tristeza eram gatilhos poderosos para que crises de ansiedade se manifestassem durante as madrugadas. A premeditação passou a ser parte de suas noites, mas por hábito do que por coragem real para fazer algo. Cometer um ato como esse nunca havia passado por sua cabeça antes, mesmo que sua vida tenha sido cheia de situações traumáticas. Abandonada pelos pais e criada em diferentes orfanatos durante a infância, o desejo de formar uma família a mantinha de pé. Talvez esse fosse o motivo pelo qual estar sozinha mais uma vez a ferisse de forma tão intensa. Uma hora ou outra ela acabaria fazendo. Já havia pensado em como e qual forma seria mais eficaz; tudo sairia conforme o planejado, pelo menos dessa vez.
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Rita conheceu Luciana quando ela entrou na empresa como secretária do contador do setor de finanças. Seu trabalho era sempre referência para todos que trabalhavam com os números, sendo clara a intenção do chefe em promover sua colega. O comportamento de Luciana, pensava Rita, era impecável e irrepreensível. Não havia reclamações para com sua postura profissional. Rita passou a trabalhar em conjunto com Luciana, quando esta foi promovida a um cargo de supervisão. A admiração que ela tinha pela sua colega era legítima e o trabalho sempre era proveitoso em sua companhia.
Quando a tragédia aconteceu uma parte importante de Luciana se quebrou, Rita pôde ver isso claramente. Todos os dias, em sua mesa, ela observava sua colega de longe e percebia que aquela capa protetora era só uma farsa que ela decidiu manter para não ser mais importunada com o apoio excessivamente misericordioso de toda a equipe. Por algum motivo, ela entendia perfeitamente o porquê de sua colega de trabalho agir como se nada mais tivesse acontecido. Rita sabia que por trás dos risos e do ''estou melhorando a cada dia'', coisas ruins estavam acontecendo.
A notícia chegou aos seus ouvidos de forma tão devastadora que ela chorou durante uma semana. Seu marido não conseguia entender o motivo de ela estar tão triste por causa da morte de uma colega de trabalho. O suicídio de Luciana foi algo surpreendente e fez com que o sentimento de culpa tomasse conta da vida de Rita. Talvez ela devesse falar com ela, mas ela nunca o fez. O medo de ser incompreendida ou de causar um mal estar ainda maior por estar invadindo o espaço alheio foi maior do que a vontade de ajudar. Muitos questionamentos do que poderia ter sido começaram a surgir em sua mente e a cada lembrança do olhar vazio de Luciana, o coração de Rita se partia ainda mais. Ela devia ter agido e possivelmente as coisas seriam diferentes; Mas elas eram apenas colegas de trabalho.
Menino do céu, qual a necessidade de fazer isso com a gente ? 💔
ResponderExcluirSempre conhecemos pessoas com o perfil da Luciana, mas nunca achamos que somos próximos o suficiente ou que teríamos alguma relevância tentando auxilar com aquele problema.
Gostei muito do texto, apesar de ter uma lágrima aqui :")
Escrevi pensando nisso mesmo. Muitas vezes nós optamos por não fazer nada, por puro medo. A verdade é que tem muita gente precisando de ajuda e só observar pode ser uma sentença de morte dada aos que sofrem.
ExcluirPs: Muito obrigado por ler e ainda comentar! <3