esquecido
Faz um tempo que eu não sei mais o que é dormir uma noite inteira e isso me incomoda muito. Toda noite eu desperto no mesmo horário da madrugada e sigo para a floresta que fica na parte de trás da minha casa. Não sei bem o motivo para que isso aconteça, mas parece que algo me chama para perto das árvores. O céu a noite é escuro, e o silêncio me faz escutar meus pensamentos com muito mais força. Minhas ansiedades se concretizam em formas na escuridão, e a sensação de que alguém me observa sempre me assombra. Tenho estado cansado, por que na verdade não tenho vontade de fazer mais nada da minha vida.
O que aconteceu com minha mãe foi decisivo para que as coisas piorassem, tenho certeza disso. Desde que o acidente se deu, ela não sai mais da cama e eu preciso ajuda-la com todas as coisas que antes eram simples tarefas de casa. Tive que voltar para a casa onde vivi minha infância e agora trabalho de casa. Isso me cansa. Porém sei que esse é o momento que minha mãe mais precisou de mim; abandonar alguém que precisa de você, é sempre mal visto.
Eu não lembro bem dos dias antes de eu vir para cá, e isso para mim é estranho. Quando eu pergunto sobre como estava quando cheguei, minha mãe sempre responde com uma pergunta. Ela sempre fez isso. Responder com perguntas. Esse era um dos motivos para que o meu pai vivesse em pé de guerra com ela. No fundo, eu penso que sou igual o meu pai que morreu. Ele desenvolveu câncer de pulmão por causa do fumo, o que o fez sofrer muito nos últimos meses. Eu não sinto falta dele e isso me faz pensar sobre como sou parecido como somos parecidos. Eu tentei fugir durante toda a minha vida, mas alcancei tudo o que meu pai foi. Todas as pessoas da minha vida não querem mais me ver e agora eu vivo com minha mãe em sua casa afastada em uma rua sem vizinhos.
Mais uma vez eu penso no que vejo durante as madrugadas. Esse som que me atrai não é algo distante, ele vem de dentro das minhas entranhas. É difícil entender porque minha mãe nunca percebeu nada isso, mas a verdade é que eu sinto algo muito familiar no escuro. Já tentei falar com ela sobre o que está acontecendo, mas acho que ela não pode me ajudar. Antes de vir para cá, as coisas já estavam indo mal, eu estava mentindo para mim mesmo dizendo que não. Ela sempre disse que eu voltaria e agora está certa. Quando a Carla disse que ia me colocar na cadeia eu pensei em fugir, mas nem isso ela fez. Ela teve pena de mim, como todo mundo que eu encontrei nessa vida. Sendo honesto, meu patrão não deveria ter me mantido no escritório, mas como ele mesmo disse, "nós nos protegemos aqui na empresa".
Hoje à noite eu vi uma coisa por detrás das árvores, era como se fosse uma perna desnuda. Parecia que havia alguém parado me encarando, sem que desse para ser visto por inteiro. Uma pessoa nua no meio do mato, com certeza isso é coisa da minha cabeça. O que me assustou foi o fato de essa ser a primeira vez que vi algo materializado, ali, parado. A distância permitiu que eu observasse por mais tempo, se eu estivesse mais perto, eu correria de medo com certeza. O terror passou por meus olhos enquanto eu via aquilo que parecia uma pessoa, sendo o meu visível e compreendido por esse indivíduo.
Eu estou maluco, eu sei disso. Nada explica isso que aconteceu hoje, porque não foi um sonho. A sensação da terra sob os meus pés descalços era vívida como quando eu cortei meu calcanhar naquele caco de vidro; era real. Como explicar isso para alguém? não saberia explicar. Qualquer pessoa duvidaria de mim, até eu se me ouvisse. A figura sussurrou de longe no meu ouvido, ela disse: "Cave". Não era um murmúrio, a fala foi proferida em alto e bom som, mas também não era um grito, só eu poderia escutar.
Eu vou falar com minha mãe sobre isso, preciso. Não dá para esconder por muito tempo, eu até acho que ela sabe. Ela sempre observa a janela e eu sempre passo por perto. Eu sei que ela não consegue dormir, as dores são fortes e ela tem insônia. Não seria novidade, isso posso garantir. O olhar dela demonstra isso, ele me revela e me deixa desesperado. Com a Carla era a mesma coisa, só que era um chamado para agir, uma necessidade imposta pelo meu próprio corpo. Eu não tive culpa. Às vezes penso em abandonar minha mãe e ir embora, mas isso não é certo. Já decidi, vou falar com ela de manhã.
Ela está ali deitada olhando para mim com aquela expressão que eu sempre conheci muito bem. A forma como ela me faz sentir é diferente de tudo que eu já vivenciei. Eu odeio isso. Falei tudo o que vem acontecendo e parece que agora, pouco a pouco, algo muda em seu semblante. Eu não entendo. Existe uma luz que se desenha em sua fisionomia, é estranho. O reconhecimento de que o momento chegou, que é hora de falar. Então ela fala: "- Eu sabia que você viria falar comigo, você sempre volta para mim." - é como se ela estivesse sozinha no quarto, mesmo que esteja falando para mim, olhando nos meus olhos.
"- Tudo começou quando eu me mudei para cá com seu pai, as coisas começaram a ficar mais difíceis, todo dia uma briga por causa de algo sem importância. Eu me sentia muito mal por estar grávida e discutir com o pai do meu filho, isso me corroía por dentro. A gente sempre mente para nós mesmos, isso nos faz sentir confortáveis com a tristeza que é a vida. Foi quando você nasceu que eu entendi que nunca seria feliz da forma que eu queria ser, porque seu pai simplesmente não me amava o suficiente, ele nunca amou. A forma como ele falava demonstrava isso. Mas você sabe de todas essas coisas, não abri a boca para falar sobre o que você conhece."
Eu não eu entendo onde ela quer chegar.
" Quando você era recém nascido, eu comecei a ter insônia, bem do jeito que está acontecendo com você. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas o meu medo era o de te machucar. Às vezes eu pensava que podia te machucar sem querer, minha mente estava muito confusa. Quando você tinha seis meses eu comecei a andar nessa floresta aí de trás, toda noite. Eu sempre ouvia algo me chamando, mas era a sua voz mesmo, o seu choro. Um dia eu te vi chorando no chão da floresta, eu fiquei desesperada, pensei que tinha tentado te matar deixando você ali sozinho. Foi aí que eu percebi que o bebê estava morto e o som vinha de dentro da minha cabeça. Eu fiquei impressionada com aquela imagem."
"Porque você nunca me contou isso, mãe?"
"Se eu contasse, você comentaria para o seu pai, você sabe disso".
"Você sempre foi muito distante de mim, eu nunca me senti bem acolhido por você, mãe."
"Eu sei disso, mas eu tinha medo. Deixa eu continuar?"
"Continua."
"Eu comecei a achar você todo dia desde então. Eram sempre corpos de bebês idênticos a você, e as vezes eles choravam, outras vezes, não. Depois de um tempo eu me acostumei com isso, mesmo toda a situação sendo muito para a minha cabeça, eu encontrava certa paz em te sepultar bem longe daqui. Descobri que existia um ácido capaz de derreter tudo, ou quase tudo, e usei com você, na verdade, usei com eles..."
Eu não acredito no que ela está dizendo, é claro que isso é coisa da cabeça dela. Minha mãe nunca foi muito brilhante e sua crendice beira a insanidade; a situação não seria diferente. Mas como eu posso explicar o que vem acontecendo comigo? como entender a sensação de que eu conheço algo naquela floresta? Eu não quero saber de mais nada, eu não quero escutar mais nada.
"Ele veio te buscar para assumir "o lugar dele", ele disse. Eu estava toda feliz que você voltou, mas não durou muito. Agora você está aqui e meu filho está lá naquele chão frio, apodrecendo junto com essas terras horríveis que seu pai comprou com o meu dinheiro porque eu que tinha dinheiro na época, não era ele..."
Como acontecia com frequência, a mãe do homem começou a gritar e chorar ao mesmo tempo. Lágrimas desciam por suas bochechas flácidas de senhora, fazendo com que seu rosto ficasse encharcado em instantes. Ela sempre chorara muito, o filho odiava isso. O pensamento de ter sua mãe de volta em sua vida o incomodava e fazia com que ele se sentisse humilhado. A relação dos dois acabara quando o pai dele morreu, foi isso. Ele sentia que sua mãe escondia algo, mas o que seria? Agora tudo fazia sentido.
Naquela noite, ele mais uma vez não conseguiu dormir. O calor do verão fazia com que o sono fosse apenas mais um inconveniente que borbulhava em um caldeirão imenso onde tudo se encontrava. Sua vida, seus antigos amigos, seu antigo apartamento e sua família, tudo fervia. Ele então levantou e foi em direção à floresta. Quando passava pela porta do quarto de sua mãe, ele ouviu um grito agudo, como se algo o tentasse impedir de sair. Ele continuou.
As árvores pareciam muito maiores essa noite, e a escuridão, bem mais real e viva. Não se ouvia nada além dos passos do homem na terra, a escuridão dormia profundamente. Depois de andar em linha reta durante dez minutos, a voz familiar começou a sussurrar: "Cave", cada vez mais perto. Foi aí que o homem percebeu que o som saía dele mesmo, mas agora estava muito mais alto, como se saísse de debaixo da terra. Era isso.
"Cave, cave, cave, cave, cave, cave, cave...", a voz falava agora como um radar que informava proximidade. Não havia emoção naquela - sua - voz, era monótona a forma como soava, sem emoção alguma. O homem se pôs em joelhos, caindo com impacto sobre a terra. Começou então a cavar. Usou suas mãos para remover a terra do chão, encontrando pedras, cortando os dedos. Cada vez mais difícil de cavar, a sujeira e o cansaço eram detalhes se o sangue da ponta dos dedos fosse observado, porém tudo se misturava. O som da voz agora era alto demais, não um grito, mas ainda assim ensurdecedor. Ele comandava o homem, ditava seu ritmo, fazia o seu corpo se mover. Braços que buscavam algo no chão agora cheio de pedras que machucavam as juntas dos dedos, fazendo sangrar.
Ele então começou a descobrir uma pessoa ali embaixo, totalmente nua. A terra parecida fazer parte desse que parecia ser um homem, porém ao mesmo tempo somente o cobria. Aos poucos sendo revelado, o homem já sabia que tratava de si mesmo, mas o momento exigia que ele continuasse a cavar, até que ele fosse liberado. "Como assim liberado?"- ele pensou. Continuou.
Quando o corpo dele estava totalmente descoberto, os olhos do homem que era ele, se abriram. O corpo disse: "Chegou o tempo de sair daqui, é hora de assumir o seus erros." Em um movimento certeiro, o homem se acertou na têmpora com uma pedra pontiaguda, o sangue dele cobrindo o seu corpo. Ele repetiu o movimento, fazendo com que o seu corpo caísse por cima do seu próprio, assim o abraçando com carinho. Por um momento ele pensou em tudo que havia visto e compreendido e disse então para o seu eu agora morto: "Eu nunca quis ser você".
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