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Mostrando postagens de janeiro, 2021

visões

  Lua acordou naquele dia com uma sensação de desconforto comum ao clima quente. Para ela o verão era a pior estação do ano, com suas enchentes distritais e o calor infernal que matava. Mais uma vez a noite havia sido repleta de pesadelos curtos onde o rosto de sua irmã desparecida passava em flashs diante dos seus olhos. Sentada na cama, Lua olhava ao redor pensando como aquele lugar a deprimia; era um “muquifo” como os antigos diziam. O apartamento em que vivia era localizado em um dos prédios com unidades funcionais construídas pelo governo, o espaço de vinte metros quadrados era apertado, mas era isso ou viver em um cubículo de baixa densidade perto das ruas do centro da cidade baixa. Ela preferia sua unidade funcional. Lua trabalhava como policial havia cinco anos e desde seus 22, sua vida se resumia em correr atrás de traficantes de drogas sintéticas eletrônicas e arrastar cada um deles para a execução humanitária, essa era sua especialidade. Ela ainda não sabia se queria...

muitas doses

Eu aprendi Lágrimas caindo por sobre o prato Angústia que queima no peito Palavras que acertam a alma Mas aprendi Eu aprendi A culpa nunca foi minha O choro era falso também O amor momentâneo e sem forças O olhar de desprezo corroendo minha vida Mas eu aprendi Eu aprendi Criando barreiras externas Seguindo e continuo assim Evitando os olhos raivosos Calando sempre que necessário Mas eu aprendi Aprendi que o mal não sou eu Que o sofrer é maior em quem causa Palavras de morte embrulhadas  Que convidavam pra uma ciranda infernal E quantas vezes, Eu entrei. Mas espero ter aprendido Eu espero Que uma hora a mente se abra O trauma não seja o norte As amarras que trancam o coração Talvez um dia sejam todas despedaçadas. Mas se não, Eu vou seguir. Não posso me permitir afundar junto Por muito tempo eu permiti, Mas eu aprendi. Estou aprendendo e espero continuar O sofrimento não é meu amigo, Somente um professor substituto Posso entrar na sala dele e depois sair Não quero me prender com aqu...

desejo

  O calor era quase que tátil na orla que se estendia por quilômetros. A noite de sexta-feira, em um verão de janeiro, prometia todas as coisas novas e cheias de vontade; o dia da liberdade havia chegado. As pessoas se empurravam para chegar ao terminal de ônibus intermunicipais, corpos se deslocando em direção ao destino depois de um dia de trabalho intenso. Mais adiante uma grande festa promovida pela prefeitura acontecia, cheia de jovens, bebidas e algo a mais. O lugar todo se resumia em pessoas que iam e viam correndo sempre sem pensar e seguindo o fluxo em um movimento insano e mecânico. Ao lado do terminal se estendia um trecho mal iluminado onde havia uma praça que era habitada principalmente por moradores de rua. Carla morava ali fazia um ano. Sentada em um dos bancos, ela conseguia ver o mar e as luzes da outra cidade que ficava do outro lado da baía. Ela nunca se cansava dessa vista. As suas roupas estavam sujas e o cheiro já começava a ficar desagradável novamente. O...

crias

No escuro eles se criam, Enquanto todos nós nos fechamos em muros Desde pequenos andando livres Levando da vida uma série de murros Se acostumam de tudo, sem sentir mais nada. Olhando para o passado e ignorando o futuro. Foram jogados a sorte desde o início, Sem saber que na cabeça havia um grande furo Não sabem quem são e nem pra onde vão Emitem sons altos para serem ouvidos Nunca foram percebidos na chuva fina, Agora são donos e criam muitos outros ruídos Sua presença desagrada, é transgressora Insinuando ódio, destilando todo tipo de confusão Querem fazer tremer a todos que vêem Impondo a tudo a sua visão Visão conturbada cheia de efeitos alucinógenos Implodindo o senso e destruindo as vidas Estão nas ruas, todos os dias do ano Observam as chegadas e também as partidas Foram crianças, esquecidas na sarjeta Viveram andarilhos sem saber onde pousar A mente deteriorada um dia então pergunta Por que não posso com isso tentar melhorar? No final não melhora, são cativos deles mesmos Rodop...