desejo

 

O calor era quase que tátil na orla que se estendia por quilômetros. A noite de sexta-feira, em um verão de janeiro, prometia todas as coisas novas e cheias de vontade; o dia da liberdade havia chegado. As pessoas se empurravam para chegar ao terminal de ônibus intermunicipais, corpos se deslocando em direção ao destino depois de um dia de trabalho intenso. Mais adiante uma grande festa promovida pela prefeitura acontecia, cheia de jovens, bebidas e algo a mais. O lugar todo se resumia em pessoas que iam e viam correndo sempre sem pensar e seguindo o fluxo em um movimento insano e mecânico.

Ao lado do terminal se estendia um trecho mal iluminado onde havia uma praça que era habitada principalmente por moradores de rua. Carla morava ali fazia um ano. Sentada em um dos bancos, ela conseguia ver o mar e as luzes da outra cidade que ficava do outro lado da baía. Ela nunca se cansava dessa vista. As suas roupas estavam sujas e o cheiro já começava a ficar desagradável novamente. Os banhos estavam ficando cada vez mais raros, mas ela tinha esperança de que conseguiria arrumar algum lugar para se limpar no outro dia de manhã. Cheirar mal afastava as pessoas e ela sabia que todo mundo a olhava como se simplesmente fosse sua escolha não tomar banho. O desejo para aquela noite era simples, ela queria um banho. A comida ela sempre arranjava, seja como fosse.

Júlia se sentia exausta enquanto organizava as últimas caixas dentro do estande que trabalhava no terminal. Começara ali apenas há uma semana, mas o cansaço da rotina era visível em seu corpo. Olheiras, dores no corpo e indisposição faziam parte da sua lista de problemas. Sua colega de trabalho, Sílvia, era bem disposta e sempre estava falando com todo mundo. O que Júlia observava era a vitalidade que aquela menina sempre demonstrava, isso a irritava. O estande vendia acessórios para aparelhos de telefone e o movimento era quase sempre muito grande. A mente de Júlia se cansava pelo número de pessoas que via, eram milhares todos os dias. Pessoas indo e vindo, clientes sem paciência, o espaço pequeno, era uma mistura explosiva. O desejo de Júlia era o de honrar com suas palavras independente do que precisasse ser feito. Ela não iria admitir voltar para casa de sua mãe, não depois do que ela havia feito.

Lucas estava voltando do trabalho e no terminal iria pegar o segundo ônibus para chegar em casa. Com certeza estaria lotado de gente e ele iria precisar ficar em pé, mas isso não era pior do que voltar para aquela casa vazia e suja. Ele conversava com um atendente de uma das pastelarias chinesas que existiam dentro do terminal. O homem, de rosto suado e impaciente, respondia as perguntas que o rapaz fazia somente por educação, mas Lucas achava que ali havia uma conexão. Ele era solitário. As pessoas pediam um salgado, uma quantidade de salgadinhos, bolinhas de queijo, pastéis, aquela era uma hora bem movimentada, o fim do expediente. Lucas, debruçado sobre o balcão de vidro onde os salgados estavam, continuava sua conversa: “Eu achei que você tinha assistido o mengão jogar ontem Marcão, tu não assistiu?”. O homem, que atendia a outros clientes e irritado por ter seu nome dito errado mais uma vez, disparou: “Cara, vai pra casa, eu nem tô conseguindo escutar o que você tá falando...” Lucas fingiu que não escutou o homem falar e gargalhou como se ele tivesse contado uma piada. A piada na verdade era ele. Seu desejo era de que pelos menos uma vez o seu avô não tivesse certo sobre ele. “Você incomoda todo mundo, Lucas” – era o que ele sempre dizia.

Maria Eduarda estava no meio daquela gente toda que se estendia por todo o espaço aberto separado para o festival de música. A área ficava mais além do terminal, uma vista de dar inveja a qualquer um. Centenas de jovens dançavam e se divertiam ao ritmo da música tocada pelo DJ da vez, uma confusão de corpos unidos com um só objetivo em mente. A menina morava em um bairro nobre perto dali e estava sozinha naquele lugar. Ela nunca tinha gostado de festas, mas o que havia trazido Maria Eduarda ali não fora o som ou amigos. A abstinência podia bater forte em dias quentes como aqueles, todo o seu corpo pedindo um pouco de pó. Ela também sabia que seria mais fácil comprar perto de casa, mas sua mãe tinha confiscado seu celular e tirado seu cartão, agora ela estava sobrevivendo com a gorda mesada que seu pai dava. Pelo menos uma vez na vida o fato de seus pais serem separados trazia um conforto enorme. A falta de comunicação entre os dois finalmente havia sido de grande ajuda. O desejo no momento era o de encontrar o tal fulano que estaria mais distante perto de uma área sem iluminação, vendendo para quem quisesse. Era sexta, ela precisava sentir algo.

A noite agora caía rápido e o terminal já se encontrava bem menos movimentado. Pessoas voltando da festa, os últimos trabalhadores indo para casa, tudo voltando ao seu devido lugar, as coisas entrando nos eixos. O calor que saía das paredes e do chão só não era maior do que o cheiro de urina e sujeira que se espalhavam por todos os cantos; a cidade fe(dia)de. O olhar das pessoas que ainda estavam ali era perdido, como se não tivesse alma dentro deles. Quatro pessoas diferentes olhando o horizonte esperando algo mais. Uma notícia que havia desestabilizado, o desejo de ser o primeiro da fila logo de manhã, a falta de vontade de voltar para casa, a vergonha de ser vista pelos amigos naquele estado; isso os unia cada um em seu canto. Eles e outras pobres vidas se espalhavam pela baía, embaixo de árvores, no gramado, onde desse. O dia estava chegando, mas enquanto não viesse, aquela era uma noite para desejar intensamente.

 

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