visões

 

Lua acordou naquele dia com uma sensação de desconforto comum ao clima quente. Para ela o verão era a pior estação do ano, com suas enchentes distritais e o calor infernal que matava. Mais uma vez a noite havia sido repleta de pesadelos curtos onde o rosto de sua irmã desparecida passava em flashs diante dos seus olhos. Sentada na cama, Lua olhava ao redor pensando como aquele lugar a deprimia; era um “muquifo” como os antigos diziam. O apartamento em que vivia era localizado em um dos prédios com unidades funcionais construídas pelo governo, o espaço de vinte metros quadrados era apertado, mas era isso ou viver em um cubículo de baixa densidade perto das ruas do centro da cidade baixa. Ela preferia sua unidade funcional.

Lua trabalhava como policial havia cinco anos e desde seus 22, sua vida se resumia em correr atrás de traficantes de drogas sintéticas eletrônicas e arrastar cada um deles para a execução humanitária, essa era sua especialidade. Ela ainda não sabia se queria continuar sendo policial, mas a promoção para detetive da 5ª delegacia de crimes virtuais foi inesperada e ao mesmo tempo serviu como um novo estímulo para continuar. Seu namorado, Cas, aparecia sempre que ela chamava, ele trabalhava em casa dando assistência aos sistemas informatizados de transporte da cidade onde eles viviam. No geral, a vida de Lua seguia sem grandes mudanças e isso a satisfazia.

No caminho do trabalho dentro do metrô de trilhos suspensos, Lua mandava uma mensagem para Cas. “Preciso de você hoje à noite”- ela escreveu com o teclado neural responsivo, e com uma piscada enviou a mensagem. “Quando você voltar estarei lá. Bjs.” – Cas sempre ia para a unidade dela quando sua namorada o mandava mensagens como aquela. Ele não se importava em trabalhar em um lugar diferente, e além do mais, sair de casa era algo fora do comum para o jovem de 29 anos.

O calor no ônibus suspenso era insuportável e não tinha solução, já que os transportes que circulavam pelas áreas marginais da cidade baixa não contavam com um sistema de refrigeração. Segundo o prefeito, o corte dos gastos em refrigeração era convertido em segurança para a população; Lua sabia que isso era besteira. A temperatura com certeza passava dos 40º, e as pessoas se mexiam com frequência, tentando afastar a sensação de abafamento causada pela aglomeração de muitos corpos dentro de um mesmo espaço. Os trabalhadores utilizavam as estações de desinfecção em frente aos prédios de serviço, sendo esse o banho que tomavam. Lua conseguia utilizar o banheiro da delegacia, lá havia água para um banho longo de dois minutos.

Enquanto esfregava o seu cabelo ruivo e longo com a espuma residual ela fechou os olhos para evitar queimaduras. O material era altamente tóxico se entrasse em contato com mucosas. O rosto de Lara apareceu uma vez, gritando e pedindo socorro como sempre acontecia. Sua irmã aparecia com mais frequência quando o aniversário de seu desaparecimento estava perto, todos os quatro anos foram assim. Rapidamente ela pressionou o botão de liberação do jato d´água por cima de seus cachos vermelhos tingidos. A espuma dando lugar a mecha branca que ela tinha pintando em sua franja. Toda vez que via sua irmã era como se estivesse muito perto e algo a dizia que ela não estava morta.

“Estelionato com usa de dados eletrônicos na rua 70, Lu” – O detetive Amaral informava Lu sobre o seu trabalho para o dia. Normalmente a rotina era bem simples, ela entrava, encontrava o homem, colocava as algemas e o veículo de direcionamento prisional aparecia e encaminhava o criminoso para uma unidade de tratamento humanitário. O trabalho de Lua era o de coletar todos os dados eletrônicos e possíveis vestígios deixados para trás pelo suspeito, era limpo e sem maiores problemas. A maioria dos envolvidos tinham muito medo de reagir, cada infração depois da comprovação de delito custava uma ofensa a mais contra o governo capital. Isso não era interessante quando se era pego e levado a uma unidade prisional.

Como de costume ela estava usando uma moto Raylight 400, um modelo moderno que podia dar saltos longos impulsionados por ar comprimido. As ruas confusas do distrito central faziam com que essa funcionalidade fosse necessária em caso de perseguição. O veículo estava na reserva, o que era comum quando ela trabalhava no turno da noite, já que os policiais da manhã não podiam abastecer durante o dia. Os bandidos de combustível aproveitavam o momento em que o campo de energia da moto estava desativado durante o abastecimento, era certo como a chuva ácida de domingo que matariam por alguns litros de gasolina.

O distrito da marginal-central era um dos mais violentos da cidade, a morte ali era algo muito comum. Suas 140 ruas paralelas circundavam o centro antigo como raios de sol. Lua não gostava de ser mandada para aquele lugar, mas o volume de crimes cibernéticos que ocorriam fora das bolhas protegidas pelo governo fazia necessária sua presença por entre os becos sujos. Sua irmã havia sido vista pela última vez perto da rua 70, correndo desesperada em direção ao conjunto de prédios vermelhos. Lua procurou por meses por todos os prédios de prostituição na rua 70, nem um vestígio de sua irmã, nem sequer um traço de atividade online, nada.

Lua estacionou a moto em frente ao Bikini 767, o prédio que concentrava o maior número de milionários fora das bolhas. Ali podia se encontrar de tudo; bonecas, bonecos e outras coisas mais, não existiam limitações quando o assunto era prazer em marginal-central, ou MC como diziam as pessoas. O dono do lugar era um dos membros do governo de cidade baixa, tido em alta pelo prefeito, ele dominava a rua 70 como se fosse seu reino particular, diminuindo o número de homicídios na área. A verdade é que ele conseguia isso através de mais homicídios e ameaças, mas a polícia e a administração pública ganhava muito dinheiro com isso.

A entrada do prédio era toda coberta por carpete vermelho e cores fortes cobriam as paredes. Aquele prédio havia sido um hotel antes de ser um motel de luxo, mas a estrutura fora mantida a mesma, salvo alguns detalhes na disposição dos quartos e tamanho das acomodações mais simples. Uma atendente muito jovem estava sentada no balcão de atendimento do lobby, sorriso e rosto perfeitos. “Fui informada que você viria, aqui está sua chave de acesso a unidade simplificada de satisfação” – A mulher estendeu a mão com uma tira de metal que carregava o código para abrir as travas da porta do cubículo. Lua pegou a chave a se dirigiu ao elevador, apertou o botão para as unidades subterrâneas, onde homens de classe média normalmente conseguiam 1 hora de prazer com qualquer coisa por um preço exorbitante. O detetive Amaral informou que a cabine era a de número 201, no segundo subsolo do prédio. O suspeito deveria estar desacordado e sob o feito de drogas, seria simples, entrar e sair com o homem algemado.

O corredor estreito e com trinta cabines dos dois lados se estendia a frente de Lua, sua mão suava, ela não estava bem. Talvez os pesadelos com sua irmã e a visão durante o banho fossem o motivo para a tal. A policial sabia que isso acontecia, por isso seguiu em frente. A porta do quarto 201 informava em uma pequena tela de LED que o cliente já havia recebido o “serviço de satisfação” e o “não perturbe” vinha logo depois. Lua aproximou a chave e a tranca abriu com um clique suave. Dentro do quarto não havia nada além de uma cama e uma pequena geladeira. O homem estava deitado em cima da cama, jogado.

Lua sacou a pistola de contenção e se aproximou do corpo, o cheiro de bebida exalando em todos os lugares do ambiente. Foi quando ela ouviu um grito que parecia vir do corredor, era uma mulher que parecia estar sendo arrastada por alguém. Ela abriu a porta da unidade e conseguiu avistar um homem alto puxando uma mulher pelo braço. A jovem vestia uma camiseta branca por baixo de um top, não parecia uma boneca que trabalhava ali. Os cabelos longos eram ondulados e revoltos, sua estatura baixa, exatamente como sua irmã. No segundo em que a mulher entrou com o homem no elevador, antes da porta fechar, Lua pôde ver os olhos grandes e expressivos: era a sua irmã.

“Parado aí!” - Lua gritou e atirou contra as portas já fechadas do elevador. Ela começou a correr instantaneamente, sua mente confusa com o que tinha acabado de ver, sem saber se era realidade ou não. O subsolo não tinha outra saída, era somente o elevador que levava para a superfície. Ela apertava o botão repetidamente, já acionando a comunicação com a delegacia e solicitando reforços para a rua 70. O elevador demorou três minutos para voltar e Lua fez uma ligação de vídeo com seu namorado, ela fazia isso quando tinha crises de ansiedade. “Eu vi a Lara, você tem que vir aqui, eu vou surtar!” – Lua gritava e chorava. “Eu vou aí agora bebê, calma, já chego!” – Cas nunca sabia quando ela tentaria aquilo de novo, por isso era tão importante que estivesse presente.

Em cinco minutos Lua estava sendo detida pela polícia de MC. O elevador voltou e ela não achou nada no lobby de entrada além de vários carros de polícia que foram solicitados. Depois de agredir alguns seguranças do local que negavam ter visto qualquer pessoa sendo arrastada dali, Lua foi recebida pelos policiais da região com uma expressão nada amigável. O dono do Bikini 767 registrou uma denúncia automática e o detetive Amaral sugeriu que ela aceitasse ficar detida durante a noite. Cas a acompanhou até a cela, sentando-se no corredor enquanto trabalhava e falava ao telefone sobre trabalho acumulado. Lua se sentia culpada por arrastar ele para aquela situação, mas seria muito pior se estivesse ali sozinha.

“Eu sei o que vi, Cas. Eu não estou maluca” - Lua dizia com voz chorosa e cansada. Cas acreditava nela, ele a amava. Eles se completavam profundamente e isso bastava para ele. Esticando suas mãos por entre as grades e alcançando o rosto de sua amada, o jovem utilizou de uma fala que os dois bem conheciam. “Eu só tenho você para fugir da próxima enchente, bebê. Não se preocupe, eu tô aqui.” Naquele momento um temporal começou a cair e em poucos minutos Lua adormeceu, as imagens do dia se condensando em chuva e calor.

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