os cinco ursos (1)
Ela abriu os olhos para um escuro que absorvia a visão, não exergava nada. Tateando por sobre os objetos do móvel ao lado da cama conseguia sentir seu óculos escuros, uma tampa de caneta e cinco moedas de dez centavos. Depois de uns segundos o brilho dos objetos já era causado pela luz do corredor, alguém lá fora estava acordado. Ela não sabia que horas eram, mas com certeza o tempo já havia passado muito mais do que ela queria. Os seus olhos já estavam acostumados com a escuridão e podia observar que nunca estiveram naquele quarto. As paredes emitiam um reflexo mais forte, como se a cor fosse outra que não o branco desgastado e cheio de manchas. Ela não sabia onde estava. Lembrou que não havia tomado seus remédios e pediu para lâmpada acender e então viu.
Em uma mesa de madeira no centro do quarto encontravam-se cinco grandes ursos de porcelana bem maiores do que os de loja, do tamanho de filtros de barro. Suas cores brilhantes refletiam a luz da lâmpada e sua superfície esmaltada lembrava a de um carro recém lavado. As expressões deles eram neutras assim como as dos pequenos ursos de goma que são mastigados um após o outro. Cada um tinha uma cor diferente e vestia uma peça de roupa feita de tecido, o que dada às circunstâncias parecia fazer todo o sentido.
Ela ficou confusa mas ao mesmo tempo não sabia se ainda estava dormindo. Da última vez que isso havia acontecido ela estava sonhando e cada episódio parecia mais próximo da realidade. Aquele com certeza era real, porque toda sua mobília havia sumido. No quarto só o que restava era sua cama e ela. Não havia mais armário para pegar os remédios e isso com certeza era um problema. As paredes agora eram de um azul claro e aberto assim como o céu em um dia de outono, trazendo sentimentos de quando ela era mais nova e ainda acreditava que seria grandes coisas.
- O que está acontecendo? - ela murmurou pra si mesma, imóvel. O primeiro urso que também estava sentado sobre a mesa de madeira e vestia um cordão com trevo de quatro folhas gigante a respondeu: " - Eu vou te contar uma história. Uma história importante mas que já esqueci alguns detalhes. Por favor, fique confortável e não tenha medo. Eu não vou sair daqui, vou continuar sentado."
Ela tomou um susto com a repentina fala de um urso de porcelana e não ousou se mecher, podia estar tonta ou tendo alucinações, não queria correr o risco de levantar e talvez bater em algo que não podia ver. Aquilo devia ser algo que se estava se sobrepondo ao que era real, bem parecido com aquele episódio da tarde de domingo em 2007 com sua tia e sua avó Mirna.
O urso então começou a contar sua história.
estrago
Ele acreditava em contos de fadas inventados por ele mesmo. Todo dia depois da escola a sua mãe já tinha ido trabalhar e seu pai estava se arrumando para o trabalho. Ele passava as tardes sozinho, mas não havia problema. Com nove anos de idade uma criança já era grande o suficiente para não colocar fogo em uma casa.
O quintal era seu lugar preferido, cheios de árvores, frutas, passarinhos e pedras que lembravam o formato da cabeça do Guilherme, o menino mais sem graça de toda a escola. Ele falava sozinho o tempo todo. Ficava em cima das árvores e imaginava cidades de cristal que flutuavam por cima de sua cabeça, suspensas por fios que iam até aos céus. Os dias eram quase todos iguais e os momentos eram muito intensos. O tempo era medido de outra forma e ele conseguia ver o sol se por. Comia frutas do pé e escondia brinquedos atrás de telhas quebradas para proteger do sereno durante a noite.
O sereno vinha e era sexta-feira um dia complicado. O álcool fazia efeito em sua mãe e ela começava a falar muito e coisas que nem sempre o menino entendia. Tudo porém era dito num volume altíssimo. Ele escutava cada palavra que era dita ao seu pai e não conseguia imaginar coisa pior que aquilo. Tudo era muito forte e feria como uma faca de cozinha que o pai dizia para não mexer mas uma vez cortou o dedo do menino mesmo assim.
Os anos se passaram e todas as torres de cristal da cidade imaginada já haviam sido derrubadas, uma por uma, para a construção de novas e fortes estruturas de concreto. Era estranho porque mesmo agora elas pareciam que poderiam cair a qualquer momento. As noites de sereno continuavam, e o menino que não era mais um menino, se contentou em aceitar uma cidade de concreto onde ele sofria por dentro e esperava a manhã chegar.
Fim.
Depois que o urso terminou de contar a história a mulher ficou ainda mais confusa, mas um sono inexplicável a fez dormir e novamente os sonhos fizeram com que ela lembrasse o motivo de não querer acordar.
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