discrição
O dispositivo de bloqueio de realidade era o que ele precisava. Fez uma dívida que não poderia, mas estava satisfeito com o aparelho que estava adquirindo. A promessa de sumir e de não ver mais nenhuma pessoa que ele não quisesse, era a solução para todos os problemas que ele estava enfrentando. O "Block Persona" consistia em um implante cerebral que fazia com que o usuário não enxergasse certas pessoas com as quais ele não tivesse interesse de manter contato. Basicamente uma mão na roda para todos aqueles que queriam evitar pessoas desagradáveis que fizeram parte do passado, mas que agora só traziam más lembranças. Era o caso de Daniel.
Depois do término com Lucas, Daniel não conseguia mais se reerguer, e foi em uma noite de sábado, depois de beber algumas latas de bebida, que entrou no site e parcelou sua nova aquisição em vinte vezes. Ele tinha medo de que talvez não funcionasse, mas alguns amigos e colegas de trabalho tinham o aparelho. Ninguém sabia se você tinha ou não, só se você contasse. A pessoa bloqueada conseguiria te ver se você quisesse, mas para que você bloqueasse a visão de suas "Personas non gratas", era necessário um adicional que fazia com que o preço do aparelho atingisse às alturas. Foi esse o modelo escolhido por ele.
Quatro meses era um tempo considerável para superar algo que nem durou tanto, ele dizia para si mesmo todo dia de manhã. A angústia não deixava isso se tornar racional e cada vez mais era como se a visão se tornasse mais limitada, semelhante aos animais que utilizam uma viseira para que não olhem para os lados; Daniel se sentia assim. Ele sabia que sua história com Lucas tinha significado mais para ele do que para seu ex, porém nada disso era levado em conta pelo seu sentimento. Havia dias bons e outros péssimos, porém ele sempre era impelido, toda sexta à noite, para a mesma esquina da Rua 7 com a Avenida Principal, onde o restaurante caro em que o ex trabalhava.
Observar de longe trazia um conforto estranho e satisfazia Daniel de certa forma, o desejo que Lucas o pegasse no flagra, no entanto, crescia. Não fazia sentido, ele sabia, mas a solidão o corroía cada que vez que chegava em casa depois de um dia inteiro lembrando momentos felizes que vivera ao lado de alguém que já havia seguido em frente.
Comprar o dispositivo iria ajudar também a bloquear as amigas de Lucas, que trabalhavam na mesma empresa e agora fingiam que não conheciam Daniel, já que a fidelidade ao amigo com certeza deveria ser maior do que relacionamentos passageiros. Ele receberia mensagens delas se fosse preciso, mas seu local de trabalho era um dos estabelecimentos que aceitavam aparelhos de modificação cerebral com a justificativa de aumento de produtividade. No caso do "Block Persona" todas as interações entre colegas de trabalho que foram bloqueados seriam virtuais e impessoais, sem nenhum tipo de identificação visual, e se possível, transferidas para outro funcionário de empresa. Era a solução definitiva para os problemas pessoais.
A solução ele tinha visto em um pesadelo que seguia acontecendo há alguns meses. Ele colocaria em prática agora que percebeu que o dispositivo funcionava, e não havia risco algum de que alguém o visse antes da hora.
A noite estava deslumbrante, assim como a maioria das noites de verão com o céu estrelado bem límpido e um clima abafado mas suportável. O salão principal do restaurante estava cheio de pessoas às mesas e vários garçons estavam servindo clientes importantes que nunca estavam desacompanhados. Lucas estava cansado do trabalho em si. Não queria continuar ali, mas também não podia dispensar o pagamento que recebia porque não conseguiria pagar as contas se não trabalhasse; era uma situação complicada. Ele com certeza iria sentar à beira do mar na pedra que gostava, depois do expediente. Por enquanto tudo o que ele pensava eram os nomes dos pratos que mudavam todo mês, esse era um dos motivos para que odiasse o trabalho.
Ele entrou na cozinha abafada e foi apresentado aos dois pratos de salmão trufado ladeado por ostras com caviar, uma beleza de comida que ele não tinha condições de pagar. Em sua cabeça, servir comida que não conseguiria comer, era no mínimo risível.
Enquanto desviava dos outros atendentes ele focava na mesa três com o casal cubano. Os dois estavam lá do outro lado do salão, mas a forma como as mesas um, dois e três estavam faziam com que elas estivessem tecnicamente no centro, já que de frente para elas um palco onde artistas circenses se apresentavam. Era uma bagunça refinada.
Faltando cinco passos para chegar à mesa Lucas parou de súbito quando viu Daniel surgir do nada. Ele vestia uma camiseta branca encardida e uma bermuda caro verde escura. Nos seus pés, as sandálias que ele havia esquecido no apartamento do ex, já bem gastas. Com os braços caídos ao lado do corpo Daniel não esboçava nenhuma expressão, mas olhava bem dentro dos olhos de Lucas. Algumas pessoas agora olhavam a situação em silêncio pois não sabiam o que estava acontecendo.
Enquanto o casal cubano acenava tentando chamar atenção para o seu prato agora tão perto, Lucas não sabia o que fazer nos poucos segundos que se passaram desde aparição de Daniel até o fim.
Com um rápido movimento da mão direita Daniel alcançou o corpo do seu amado e colou uma fita interativa de bloqueamento duplo em seu ombro direito. Com a outra mão sacou a arma que estava no bolso e disparou no peito de Lucas, depois em seu peito. Os dois caíram no chão e as pessoas, que agora não viam o que acontecia, corriam para fora do restaurante em desespero.
Lucas estava ajoelhado com os dois pratos ainda em suas mãos, seus olhos arregalados olhando o rosto de Daniel, agora relaxado e estranhamente feliz. Ao cair lentamente, sem forças e perdendo muito sangue, Lucas largou os pratos e ouviu o barulho de cerâmica que quebrava. O cheiro do óleo de trufa agora se espalhava, agradável sensação contrastando com a dor que sentia no peito.
Daniel se esforçou ao máximo para se aproximar do seu ex, que agora estava caído com as mãos no peito. Seus olhos continuavam a fitar Daniel durante todo o tempo enquanto ele chegava cada vez mais perto. O sangue agora estava espalhado por todo o lado, as pessoas que ainda não haviam corrido para fora escorregavam e caíam no meio do salão.
Com um gesto simples esticando o braço para frente e tocando o peito de Lucas, Daniel olhou mais uma vez nos olhos do seu amor e disse: "Não se preocupe, ninguém pode nos ver".
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