visita

 as cores do céu ficaram verde, na verdade já estavam. Desde quando ela engravidara pela segunda vez, o tempo parecia ter colapsado, mas ela não entendia. Enquanto limpava a casa das donas que a chamavam de “preciosa”, ela não parava de olhar os sacos. Aquela quantidade de lixo era muito um indicativo forte de que aquelas pessoas tinham dinheiro para gastar e desperdiçar, isso não era o que acontecia com ela. As crianças às vezes não comeram.

Se não fosse a menina, os olhos azuis com tons de verde, pedindo comida o tempo todo. Ela olhou pra trás quando virou na esquina daquela rua, nunca mais iria voltar. Estava decidida. Ultimamente parecia que sua história precisava de revisão. O olhar dos seus filhos aparecia em sonhos durante à noite, era real como uma faca que corta você enquanto prepara o almoço.

Mas o céu continuava a ficar cada vez mais verde, mas perto do centro, como que rajadas onde você vê uma melancolia que é própria de quem já sofreu muito.

Ela estava ficando sem meios nem fundos. O seu corpo não era mais o mesmo, as viagens longas de ônibus estavam cansando mais do que nunca, a fatiga da mente superando qualquer outro sentimento. Foi em sonho, depois de alguns anos suspensa em um vácuo de ressentimento que teve a ideia: iria na casa daquele homem conseguir que desse dinheiro a ela.

Enquanto estava na terceira e última condução ela observava o céu, de um verde que não cessava, e isso era cansativo. O coração batendo na boca, o choro represado dentro dos olhos, isso tudo indiscutivelmente arrasando cada pedaço de sua alma. Quando chegou à esquina que tinha cruzado anteriormente em sentido contrário, sentiu de novo as mãos rechonchudas que ainda pouco sabiam do trabalho que com certeza teriam pela frente na vida. As palavras de sua mãe agora a cortavam em mil pedaços sempre que lembrava deles dois: “a gente vai continuar nessa vida enquanto a vida continuar e é esse o nosso fardo”. Ela não queria nada disso para eles. Contudo, no final era mais importante que eles comessem.


O caminho agora tinha mais mato, o lugar distante e mal iluminado era familiar para ela, todos os outros lugares que vivera eram similares. Quando chegou em frente ao terreno viu, abrigada pelo escuro, uma cena distante para ela. O homem que havia roubado sua vida estava sentado em uma cadeira e com os pés em uma bacia. Meninos jogavam bola e a jovem mulher com quem ele agora tinha outros filhos colocava roupa na corda, mesmo já sendo cinco e meia da tarde. As meninas estavam brincando de boneca, eram duas. Ela olhou dentro dos olhos de sua verdade e na mesma hora se aproximou do terreno que não possuía muro, sendo somente uma cerca precária a separação entre o público e o privado.

Oi, boa noite! 

Ela falou assustando as pessoas que não haviam enxergado sua presença, como sempre. Nesse momento ela se olhou e percebeu o porquê dos olhares questionadores que recaíam sobre ela. Sua aparência havia mudado, mas eram suas roupas velhas e seu cabelo já com muitos fios grisalhos que revelavam sua amargura e isso se refletia na feição do pai de seus filhos. “Eu quero que você me dê dinheiro, estou precisando de dinheiro, você me deixou sozinha.” Ela continuaria a falar, mas percebeu que estava em uma situação de vulnerabilidade, nem havia sido convidada para sentar.

O seu tio dizendo para sua avó que ela não era bem vinda em sua casa porque sua mãe era uma mulher sem vergonha veio em sua mente como uma seta que acerta uma fruta que já estava sobre o solo de folhas.

A menina dos olhos azuis com verde congelou. Ela percebeu que a voz da mulher era de muito tempo atrás, estava em seu coração, não tinha dúvidas. Se pôs de pé e olhou em direção à mulher, era com certeza sua mãe. O que vira nos olhos dessa pessoa era diferente do que ela esperava. A verdade é que a espera era uma espera em branco. Ela não sabia nada de sua mãe, e seu irmão também parecia não querer perguntar muito, o que a enfraquecia. Sua madrasta estremecia quando seu pai mencionava a sua mãe, mesmo que isso sempre fosse relacionado a algo negativo. 

O coração dela acelerou, os olhos azuis com riscos verdes com força sobre ela, agora o menino que estava muito mais parecido com ela do que antes também a encarava. 

“M. Do que você tá falando? Por que não avisou que viria? Eu te devo alguma coisa? Você me mandou embora, você não queria nada “.

A mãe daquelas crianças tinha se acabado mesmo, era essa a impressão mais visível que ela tinha. Quando havia deixado as crianças ainda tão pequenas, tinha um ar decidido, mesmo que desesperado. Era uma decisão que com certeza tinha sido tomada de madrugada, não se pensa com clareza nas horas de vazio noturno. O homem com quem ela estava parecia estar comprometido com o casamento, mas ela não tinha certeza sobre muita coisa que diziam ter acontecido, não se perguntava muito ao marido, ela porém, tentava.

A menina correu em sua direção e sua reação foi muito lenta. Ela, a menina agora com sete anos, segurou suas pernas, e sorrindo mostrou a boneca que estava na mão:

Olha, ela fica dura assim, o tempo todo. Papai falou que a gente pode deixar ela em pé que ela não cai; ganhei de natal.

Ninguém ali a acolhia, apenas a menina. Ela soltou os braços da menina de suas pernas, olhou em seus olhos com riscos verdes e se despediu de tudo que era parte da sua outra vida. O romance que existiu eram cartas em um baralho que ela mesmo criou. As notas de amor que ela escrevia para ele, inspirada, e que guardava debaixo do seu travesseiro, agora só continham lembretes do dia ou listas de compra. Aquele amor se esvaiu.

Mais uma vez caminhava indo embora, não deveria ter vindo, era um erro que ela quis conscientemente cometer. As lágrimas se encontravam com seu vestido de um cinza desbotado. As mãos de suas crianças se estendia do pequeno berço que a dona Deolinda deu. Ela não chegou perto. Agora o caminho era outro, aquela vida morreu. 

No ônibus olhando pela janela, ela podia ver que o céu já recaía escuro. Quando passando pelo centro da cidade as luzes verdes voltaram à memória o esquecimento que matava sua esperança. A morte do que ela fora dizia pouco sobre a vida que ela estava vivendo, e isso a angustiava muito. O mundo girava em torno de sua presença desconexa e os sacos de lixos que se espalhavam em frente aos bares mostravam aquele rejeito que ninguém gosta. Um lápis e um pedaço de papel de um caderno, que havia encontrado no lixo, serviram de anotação:

“-Amanhã preciso levar as roupas que peguei pra lavar de volta para a vizinha da Lourdes.

- Paguei o dinheiro do seu Valmiro em dia, não sei quando vou poder comprar de novo.

- Não consegui nada com essa vinda até aqui, agora estou voltando para casa.”

O desejo agora era que o céu escondesse os seus verdes, porque o amor que fez aquela menina, foi o amor que a enganou, e isso ela queria esquecer. Os olhos fechados agora ficavam pesados com o balanço do ônibus, abrindo sua memória mais uma vez e fazendo com que o verde encobrisse sua alma. 



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