a menina e o cachorro
Ariana sempre passava por aquele caminho nas manhãs de domingo, sempre sozinha. Sua mãe pedia que ela buscasse pão e ela gostava de olhar para as árvores grandiosas que ladeavam a estrada de terra. Ela tinha oito anos e morava com sua família em um bairro residencial de uma cidade pequena. As pessoas ali conheciam seus pais e todos amavam a companhia da menina, especialmente por sempre estar alegre e cheia de curiosidade pelas coisas que via.
O dia estava quente e ainda lembrava o verão que havia terminado há duas semanas, algo comum para o início de Abril. As pessoas que passavam cumprimentavam a menina, que seguia sorrindo e cantarolando uma música que costumava ouvir na escola com sua professora. No meio do caminho, existia uma rua que dava para uma propriedade abandonada e a menina tinha medo daquele lugar. O mato crescido dava a impressão de que coisas se escondiam e isso era o suficiente para fazer com que Ariana não se aproximasse. Ela sempre parava para admirar a enorme casa que estava no quintal cheio de mato. De longe, era muito bonita e parecia guardar muita história; um dia ela queria ir lá para ver como era por dentro.
Enquanto observava o casarão, Ariana ouviu um chiado baixo, como de um cachorro que tinha dificuldades para respirar. No instante em que percebeu o animal em perigo, a menina se colocou a procurar no mato perto da estrada por onde caminhava, sem conseguir encontrar. O barulho, que agora ficava mais alto, parecia vir do portão da casa enorme, mas ela tinha medo e não queria chegar mais perto. O choro do bicho a incomodou tanto e o animal parecia tão triste que ela não resistiu e deu passos em direção ao grande terreno. Os muros altos impediam a visão do que existia para além, sendo o grande portão com barras de ferro a única forma de observar a grande casa que ali havia. Ariana se afastou cada vez mais do caminho, já se embrenhando pelo mato que tomava conta até mesmo da estradinha que dava para a casa; ninguém ia ali, não havia motivos para isso.
Já perto do portão, uns duzentos metros longe da estrada e coberta pelo mato alto, a menina não conseguia acreditar que estava ali procurando um cachorro perdido. Ela chamava por ele, fazendo os sons típicos de quem quer atrair um cão. Seu coração estava aflito, pois a cada passo parecia que o sofrimento do animal aumentava, sendo o choro cada vez mais nítido a medida que se aproximava do portão. Finalmente ali estava e agora tinha uma boa vista da fachada da casa antiga, que antes apenas podia observar o segundo andar. Ariana ficou deslumbrada com o que viu ali, não podia acreditar. Seus olhos mostravam algo totalmente diferente do que ela poderia ter imaginado, parecia que estava sonhando.
O grandioso portão, com suas barras enormes e altas não revelava um pátio descuidado e cheio de mato como era de se esperar, mas sim uma área em perfeito estado. No centro do terreno que se estendia em frente a mansão havia uma fonte muito grande e baixa, "talvez por isso não tenha conseguido ver de longe" - pensou a menina. Os jardins se estendiam dos dois lados da fachada do enorme prédio e algumas árvores cresciam no espaço iluminado. A menina esqueceu por um momento do cachorro, que agora estava sentado em frente ao portão, do outro lado, como se esperasse por ela. "Ah, você está aqui!". A menina estendeu os braços e pôde acariciar a cabeça do bicho que parecia não se opor.
Como era seu hábito com os animais, Ariana começou a falar com o cachorro enquanto este permanecia sentado, olhando fixamente nos olhos dela. "Eu não podia imaginar que um vira-latas como você teria uma casa tão linda!" - disse a menina, agora fazendo carinho por todo o animal. Nesse momento ela já estava ajoelhada e conseguia colocar os dois braços para dentro sem nenhuma dificuldade. Ariana então começou a se levantar para ir embora, não sabia quantos minutos havia se passado desde que chegara ao portão; já era hora de ir embora, sua mãe poderia estar preocupada. Foi aí que algo fantástico aconteceu.
"Por que não fica mais um pouco, talvez você possa entrar e eu te apresento minha família" - as palavras saíram da boca do cachorro, a menina tinha certeza disso pois o encarava no momento. O terror então tomou conta de Ariana, que imediatamente retirou suas mãos de onde estavam. O bicho continuou no mesmo lugar, mas agora falava abertamente, como se nunca houvesse ficado em silêncio. "Eu sabia que isso iria acontecer, mas gostei de você. Por favor, se for embora agora, pense em voltar para me ver, gostei de você de verdade..." - o cachorro se comunicava de forma clara e com um tom de voz médio; agia como qualquer pessoa que falava com um amigo ou ao telefone.
"Não!" - foi tudo o que a menina conseguiu dizer, estava apavorada. Ariana correu a toda velocidade até chegar em casa. Sua mãe estava colocando as roupas no varal e ficou imediatamente preocupada ao ver sua filha passando correndo e chorando ao mesmo tempo. "Ariana, o que aconteceu?" - gritou a mãe confusa, que tentava fazer com que sua filha voltasse. Ao entrar no quarto da garota, a mulher encontrou a menina aos prantos. Ariana estava muito nervosa e soltava frases sem sentido como "O cachorro falou comigo" e "Eu ouvi o cachorro falando". A mãe da menina começou a rir, não conseguiu se controlar.
"Então você está chorando porque o cachorro falou com você, é isso?" - lágrimas já saíam dos olhos da mãe de Ariana, que claramente não acreditava na história da menina. O choro da garota, que antes era de medo e nervosismo, agora se transformara em fúria. As bochechas estavam queimando e seu rosto com certeza estava vermelho, mesmo sendo sua pele marrom como chocolate. Com certeza ela não estava louca e iria provar isso para sua mãe.
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