ancient
“Você promete que vamos em direção à lua quando a criança nascer?” – A filha de Sod dos coletores perguntou mais uma vez ao seu amado. Todos os dias de lua cheia eles marcavam de se encontrar no mesmo lugar. Como a filha de Sod era prometida a Oti, eles ainda não podiam estar juntos na frente de todos. O bebê que a menina esperava estava para nascer e a cada dia a ansiedade de Sid, como sua mãe a chamava, aumentava. A aliança entre os coletores da costa e dos agricultores da região dos vales era muito importante, o casal tinha plena consciência disso. Contudo, nesses momentos o que importava era o amor entre os dois. Oti sempre olhava Sid nos olhos e dizia coisas que nem ele mesmo entendia, era o amor falando mais alto.
Em quatro semanas o acordo entre os povos seria selado com o sacrifício da primeira criança gerada pelos amantes, esse era o procedimento padrão para que os espíritos das árvores ao norte permitissem bom tempo, colheitas proveitosas e achados preciosos que poderiam servir de moedas de trocas com outros grupos hostis. A mãe da criança aceitava bem o destino já traçado para o seu bebê, mas um sonho a fez repensar a história da noite para o dia. “Eu não posso deixar que o pai da floresta mate esse bebê. Eu vi nós dois vivendo longe daqui, perto das montanhas do norte.” – Sid descreveu o que viu, em tom de súplica para Otis. O filho de Otac da tribo de agricultores tinha medo das coisas que sua prometida falava, seus sonhos e suas ideias as vezes os confundiam, era difícil até mesmo explicar o que ela dizia para seus irmãos.
Otis então prometeu que o filho não seria morto pelo pai da floresta na grande cerimônia, eles fugiriam. Todos os dias o pensamento do rapaz se voltava para a possibilidade de algo dar errado e como ele conseguiria sustentar a mulher e um bebê recém-nascido na floresta do norte, lugar onde os animais eram gigantes e o clima dificilmente lembrava o mormaço quase constante o qual ele estava acostumado. Ele nunca mais havia voltado aquele lugar depois de sua cerimônia de transição. Durante seis meses, todos os anos, o pai da floresta se retirava com os jovens da tribo dos coletores e dos agricultores e os iniciava perante o espírito da floresta do norte.
Sid escondia os dentes de lobo que sua mãe estava preparando para adornar a criança que seria enterrada com colares confeccionados com as partes do animal. A cerimônia consistia em colocar o bebê para dormir profundamente, mas a mãe da criança sempre desconfiara que aquilo na verdade era morte. O primeiro recém-nascido que ela viu ser sacrificado a marcou por toda sua infância. Quando estava prestes a beber o líquido purificado, a criança abriu os olhos e começou a chorar, foi uma comoção geral. A diferença é que todos a sua volta regozijavam, mas Sid estava com medo de tudo aquilo, era como se estivessem tirando a vida de um inocente. Em nada era diferente de um coelho sendo degolado por sua avó ou dos cervos abatidos pelo seu pai. Ela nunca contou esses pensamentos para ninguém exceto Otis.
Eles se conheciam desde a infância. Desde o inverno rigoroso de dez anos atrás, as tribos ficaram muito mais próximas e o sacrifício da primeira filha da prima de Sid foi visto como a salvação para aqueles povos durante muito tempo. Sid acreditava nisso, de verdade. Mas por algum motivo ela duvidava que o sonho dela não havia sido real. As árvores do norte se materializaram em seu sono mostrando algo para ela, algum motivo maior devia existir. Ela também tinha medo. Sabia o que havia acontecido com as mulheres que recusaram sacrificar seu primeiro filho. Em meio a choros de alegria, elas eram enterradas ao lado do bebê, e isso era considerado uma dupla honra para os parentes da mulher em questão. Sid queria acreditar que o que ela viu fora muito mais real do que qualquer coisa que ela experimentou acordada. Os espíritos queriam que ela mantivesse a criança, e ela iria conceder-lhes esse desejo.
A semana do sacrifício foi de muita apreensão para o casal. Otis não conseguia dormir e suava durante toda a madrugada. A sua mãe ficou preocupada e preparou um chá de ervas como ensinado pelo pai da floresta. O líder espiritual da tribo não se encontrava ali com eles, estava em sua jornada de iniciação dos jovens e só chegaria um dia antes da cerimônia de sacrifício. Muita coisa era preparada para o grande dia. As tradições dos dois povos se uniam e uma representação de cada deidade da floresta era construída por um artesão que trabalhava com a madeira das árvores do norte. As grandiosas estátuas eram sagradas e no final de cada cerimônia eram queimadas, para que os espíritos retornassem ao seu local de origem.
Dois dias antes do pai da floresta chegar, Sid se sentia como nunca. A lua cheia estava mais uma vez no céu, e o seu coração ardia de esperança por um momento com os espíritos do norte. Ela se separou como de costume, e suplicou por mais bençãos sobre os seus. Sua mãe respeitava muito a devoção da filha e admirava a forma como a menina sempre aceitou o destino da criança que carregava no ventre. Assim que o colar de pérolas estava pronto, tradição passada pelos coletores da costa, Sid o provou com alegria e certeza de que todos a estavam deslumbrados com seu adereço. As pérolas representavam as lágrimas de alegria que Sid choraria quando visse seu bebê, adornado, descendo a eterna sepultura.
“Eu quero que tudo dê certo, Otis, e vai dar...” – Sid falava como que para si mesma. Otis por sua vez não parecia muito certo sobre como conseguiriam fugir dali. “Sid, nós precisamos pensar melhor sobre isso, eu não sei se isso é o certo...” – O olhar de Otis buscava uma confirmação na expressão de sua amada, mas Sid estava certa de que era o que os espíritos queriam: eles deveriam partir durante aquela madrugada. Quando acordou à noite, a menina pegou sua bolsa de pano com os pertences importantes que havia escondido e saiu em direção ao assentamento do povo agricultor. A fumaça que surgiria atrás da cabana de Otis nunca apareceu e ela permaneceu ali esperando por horas. Como eles haviam marcado às três da manhã, em pouco tempo o sol já estava apontando no céu. Foi aí que o desespero tomou conta de Sid.
A manhã trouxe um céu límpido, porém a temperatura estava fria o suficiente para fazer Sid tremer seu corpo com toda a força. Os primeiros aldeões agricultores, que normalmente acordavam mais cedo que os coletores, viram Sid e estranharam a menina em suas roupas cerimoniais já fora de sua casa. Imediatamente recolheram a menina e a colocaram debaixo das cobertas de uma cama improvisada que fizeram no centro onde aconteceria o ritual. “Pronto, agora você está mais confortável.” – Murmurou a mulher de Doti enquanto afofava as cobertas por sobre a menina.
A cerimônia aconteceria ao meio-dia e Sid ouviu alguém comentar que o pai da floresta estava muito alegre por perceber a ansiedade demonstrada por ela. O parto seria induzido por um chá preparado pelas servas do líder espiritual e em duas horas de dor excruciante a mulher entregaria seu filho para o sacrifício. Ele então seria lavado e vestido com a pele de coelho de um coelho branco, os adornos feitos pela mãe de Sid e suas servas sendo colocados por sobre sua pequena cabeça e todo corpo da criança. O silêncio absoluto que se iniciava cinco horas antes do ritual atordoava Sid. Ela não conseguia pensar em alguma forma de sair dali sem ser vista por ninguém, era impossível. As vozes dos espíritos da floresta dizendo baixinho em seu ouvido: fuja!
Quando o pai da floresta apareceu no espaço reservado para o sacrifício Sid começou a chorar. Ela permanecia deitada em parte porque tomara um dos chás que eram ministrados pelas servas do líder espiritual dos povos unificados. Seu corpo estava dormente, principalmente suas pernas. Todos os habitantes das duas aldeias estavam ali, eram no mínimo duas mil e quinhentas pessoas, um grupo enorme para a época. As danças e cânticos haviam iniciado, muitas mães já choravam com intensidade, parecendo influenciadas por um frenesi de chá, música e ânimos exaltados. Sid entrou em desespero quando viu a jarra sagrada do chá que a faria abortar a criança, ela devia fazer algo se não seu filho morreria. “Eu não quero que meu bebê seja sacrificado!” – gritou Sid com toda sua força, o gosto de sangue na garganta.
No mesmo instante o pai da floresta parou sua prece contínua e olhou para a menina grávida que agora tentava se levantar da cama. O homem se aproximou do buraco onde o bebê seria enterrado, olhou para o céu e derramou o sangue do coelho puro que havia sido escalpelado, por sobre a terra úmida. Sid sabia o que isso significava, ela estava se oferecendo para o sacrifício também. O desespero tomou conta de seu corpo, e ela se debatia no chão tentando levantar-se. “Otis, me ajuda, por favor!” – ela gritava repetidas vezes, seu rosto encharcado de lágrimas. O jovem permanecia dentro de sua cabana e o desespero de Sid podia ser ouvido mesmo com a distância. “Não se preocupe filho, os espíritos da floresta estão vendo o seu sofrimento.” – a mãe de Otis o consolava.
Todos estavam apreensivos por não saber o que fazer. Nunca nenhuma mulher havia reagido daquela forma. Ou a grávida sacrificava o bebê ou aceitava de forma pacífica sua sentença de morte, sempre aconteceu dessa forma. Homens orientados pelo pai da floresta já continham a menina. O procedimento agora seria outro. A decisão era de que o bebê e a mãe seriam enterrados ainda unidos. O chá de purificação já estava pronto para que ambos dormissem. Sid agora estava amordaçada, tentando de todas as formas falar, ela não conseguia expressar a mensagem dada a ela pelos espíritos da floresta. Seus pais a olhavam com terror em suas faces, principalmente sua mãe. Todos ali sabiam, porém, que os espíritos malignos do Sul espreitavam essas cerimônias e podiam se apossar do corpo das mães se elas não fossem fortes o suficiente. Era uma tristeza ver isso acontecendo com uma menina tão especial como Sid.
O chá agora seria ministrado através de uma canaleta que seria introduzida a força por entre as ataduras, não havia escolha para a mulher grávida. “Meus iguais vejam como os espíritos são sujos, enfeitiçaram a mais devota das nossas mulheres!”. Muitos choravam e esperavam ansiosamente que tudo aquilo acabasse.
Sid sentiu o líquido viscoso desser por sua garganta e imediatamente a sensação de fogo consumindo seu corpo se alastrou por seus membros. Em poucos minutos a dor fez com que ela urinasse em sua bela roupa feita pela avó de Otis. A menina gritava com toda sua força, as lágrimas atrapalhavam sua visão e ela não conseguia mais pensar direito. Seu coração parecia que ia explodir, a morte estava próxima. Foi aí que uma voz falou em seu ouvido: “Acalme-se, você estará conosco”. A mente de Sid parou de funcionar nesse exato momento. Seu corpo se debatia convulsivamente e ela podia ver sua mãe ajoelhada com o rosto cheio de marcas pelos arranhões que havia feito - as mulheres demonstravam o sofrimento assim. Em segundos o seu corpo também foi parando de se mover e sua cabeça foi ficando cada vez mais leve. Mesmo de olhos abertos, tudo escureceu. Era o fim.
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