inacabado

"No final do dia,
se quiser ver luz,
dê um fim ao que se move lentamente.
Ilumine os passos dele, 
para que não caia.
Prepare o caminho,
para os pés perdidos.
Você verá a luz,
assim saberá o que foi revelado".

A inscrição na parede de sua casa parecia um ser com vida própria. Escritas à mão com o que parecia ser carvão, era curioso que estivessem ali desde sempre. Quem escreveu nunca foi visto por ninguém, e os vestígios da presença estranha há muito desapareceram. Uma mensagem endereçada ao habitante daquela casa, escrita por ninguém, era isso que ele gostava de pensar.

O ele se chamava eu, era assim que se referia quando falava em voz alta. O Eu gostava de conversar com a escrita na parede, fingindo conhecer quem foi o ser que esteve ali, parado dentro daquela sala, provavelmente preocupado com a responsabilidade de seu aviso.
- Eu gosto das plantas no verão, você gosta também, você? - Você foi o nome dado por Eu ao responsável pelos versos.
Era inútil perguntar qualquer coisa, nada nunca respondia. As pedras eram mudas, as árvores só se mexiam se ventasse e os únicos animais que Eu vira estavam muito longe; ele não tinha coragem de se distanciar muito da casa. 

Viver ali, em uma casa no alto de uma colina e no meio do nada, era muito calmo. A comida aparecia sempre em sua mesa, sem esforço. Ele tentou muitas vezes descobrir como, mas nunca conseguiu ver o exato momento da entrega. Até quando se posicionava com atenção para observar a chegada dos mantimentos do dia na cozinha, era surpreendido com o barulho da materialização do alimento na sala de estar. Quem fosse o benfeitor, não queria se revelar.

Eu passava o dia andando e observando a natureza ao redor da casa. Alguns dias eram melhores que outros e até mesmo a disposição para atividades simples, como lavar a louça do almoço, dependia do estado de humor do homem. 

Ele nunca havia falado com alguém como ele diretamente, era o único ser humano que existia naquele lugar. A vida ficava menos solitária quando uma fada pequenina chamada Zen aparecia. Ela passava um dia inteiro com ele conversando sobre todo o tipo de coisa, dos astros no céu a como os bebês elefantes conseguiam ficar de pé tão rápido logo após o nascimento. Zen não era uma fada de verdade, mas Eu chamava ela disso e foi o nome que pegou: "Zen, a fada". Os olhares que a fada dava para Eu resumiam tudo o que ela queria dizer, se parecia incomodada, era melhor parar a conversa. Às vezes Eu falava demais.

De tempos em tempos todo o lugar passava a ser um branco vazio, e Eu se contentava em observar a ausência em sua frente. Parecia que um universo inteiro de sentidos cabia ali naquele momento, desintegrando todo o interesse por qualquer outra coisa. Ele não sabia quanto tempo duravam o que ele chamava de "dias de branco", mas ele não sentia sede nem fome. A privação dessas coisas eventualmente o fazia sentir fraco, e ficar acordado parecia um grande desafio. Depois de muito tempo brigando contra a indiferença, ele dormia.

Depois de acordar de um sono que parecia durar décadas Eu se levantava e as paredes da casa que vivia estavam repletas de mensagens.

"Não me dê o todo
Eu me contento com uma parte
Repito, não traga isso pra mim.
Deixe onde está
Não quero ver nem a embalagem.
Me deixe em paz".

Essa mensagem estava ao lado da mesinha com o telefone que nunca funcionou. O conteúdo era sim interessante, mas a forma como foi escrito parecia ainda mais incomum. Eu leu a mensagem em uma outra língua,mas entendia o que era dito, as letras que foram deixadas por linhas tortas devem ter sido feitas com um pincel. A tinta desse pincel era dourada, e o delicado traço parecia pura arte, as voltas e os caminhos salientando o desespero do autor.

Eu gostava de acordar depois de um tempo dormindo. Ele sempre sabia que alguma árvore frutífera estaria do lado de fora esperando para saciar sua fome. Logo que saiu, desta vez encontrou o chão onde as árvores sempre estavam, vazio. Um envelope fechado esperava por ele, e a mensagem de dentro da carta era simples mas eficaz. "Abra os seus olhos".

Eu abriu os olhos e sentiu o peso da realidade colidir com sua mente há muito desligada. Olhou em volta, estava sozinho e tudo que ouvia era o sinal da máquina que acompanhava seus batimentos cardíacos. Ele preferiu voltar a dormir, mas não conseguiria dessa vez.





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