intencional
Os dias eram plácidos em Correntezas, cidadezinha do interior do estado. Rita era uma dona de casa feliz que sempre havia estado no mesmo lugar. Sua casa atual era também seu lar de infância. As montanhas, as florestas e os rios, todos velhos amigos que ela conhecia muito bem. O povo todo se conhecia, e Rita era a dona de umas das poucas vendinhas que o lugar possuía, tudo muito humilde e limitado, mas ela fornecia o básico para quem morava ali. Seu pai havia sido o dono da venda anteriormente, e desde que seu divórcio tinha sido oficializado, Rita fazia todo o trabalho sozinha. Ela não tinha filhos.
De manhã, ao lavar o rosto na pia externa que tinha na área atrás da casa, ela olhou seu reflexo cansado no espelho. As olheiras agora eram fixas em seu rosto, não saíam nem com vinte horas de sono. Seus cabelos estavam mal cuidados e suas roupas já estavam muito usadas. Rita estava bem largada, como ela mesma gostava de falar. Ao se queixar com as pessoas que frequentavam sua venda, Rita procurava por elogios que enaltecessem sua dedicação para com o povo, ela preferia ser elogiada por seu trabalho, não sua aparência. Arrumou sua bolsa de sempre e se certificou que tudo estava em ordem, ferramentas amoladas, limpas e bem posicionadas.
Na rua, Rita encontrou Thiago, o filho mais novo do jovem casal que havia construído uma casa em um ponto distante da pequena cidade. "Olha Dona Rita, eu peguei essa pedra preciosa, você acha que ela vale quanto?" - perguntou o menino de sete anos com esperança. Rita respondeu que aquela pedra com certeza valia um milhão no mínimo, fazendo com que o garoto recebesse a resposta que queria, sorriso largo no rosto correndo em direção ao seu lar.
O dia estava nublado e o pequeno centro que se resumia a uma praça estava parado como de costume. Os carros da obra já estavam ali, aqueles homens que estavam construindo algo grande em uma cidade vizinha sempre estavam juntos esperando que ela abrisse as portas. Rita acabou mantendo o bar que seu marido teve a ideia de fazer dentro da vendinha. Ela discordou, mas no fim todo mundo já frequentava o lugar, não tinha escolha a não ser manter essa parte do estabelecimento mesmo depois do divórcio.
"Ae Ritinha feliz 2023, você tá bem?" - o homem se apressou a cumprimentar a mulher que suspendia as portas da sua loja. Rita não respondeu, não estava se sentindo amigável com aqueles homens nessa segunda em específico. Logo que as portas estavam suspensas, os homens entraram, eram cinco que sempre chegavam às 8:30, e depois de pegar um pão e café na padaria que abria mais cedo esperavam Rita chegar para começar a beber logo de manhã. O trabalho deles era o de carregar caminhões com materiais para a cidade vizinha, fazendo várias viagens de ida e volta durante o dia. Eles dirigiam bêbados pelas vias entre as cidades, por ali ninguém se importava com isso.
Era dez da manhã quando Rita serviu Jorge mais uma cerveja, escutando ele falando pela terceira vez da ex, a Maria. "Eu depois que me separei da Maria encontrei uma mulher na rua e eu estava doido, nem lembro o que eu fiz naquele dia". Os outros homens eram todos de outras cidades, somente Jorge vivia em Correntezas. No momento, eles se preparavam para levar cargas com quatro caminhões de areia e pedra, só Jorge ficaria esperando dessa vez.
"Eu juro que eu não lembro o que aconteceu aquela noite, de verdade!". - o homem bateu com a mão no balcão dando risadas altas, agora eram só ele e Rita no estabelecimento. Ele pediu mais uma e ela deu. Já sentia que o homem estava um pouco alterado para o horário e tentou, nem sabia o porquê, aconselhar o vizinho: "Seu Jorge, acho que já está bom, né?". Jorge olhou para Rita com um olhar desafiador e perguntou por que todas as mulheres queriam dizer o que ele devia fazer, o homem estava nervoso por algum motivo.
Uma menina entrou do outro lado da loja, fazendo com que Rita saísse do bar e atendesse a criança que procurava por suco em pó para o almoço. O estabelecimento dava pra duas ruas, fazendo com que o pedestre de uma rua acreditasse haver somente um bar, enquanto na outra rua tudo o que se via era uma venda. "Toma minha filha, eu anoto aqui pra sua mãe".
"Pensando bem, eu acho que eu lembro um pouco o que aconteceu!" - o homem gritava lá no bar, por trás da parede de madeira de compensado que dividia os ambientes. Rita voltou para o bar, tentando prestar atenção à sineta que estava no venda, se alguém chegasse, tocaria.
"O que aconteceu, homem?" - Rita perguntou enquanto secava alguns copos que estavam na pia.
"Eu olhei aquela mulher na beira da rua e me apaixonei por ela! Eu tasquei um beijo na boca daquela safada, ela era bonita, bonita assim que nem você Rita!" - o homem tinha um sorriso bobo e quase confiante em seu rosto.
" Eu segurei ela bem forte porque parece que algo tomou conta de mim, eu fiquei muito interessado naquela mulher..."
Rita ouvia a história atenta, sua bolsa, ela via de longe, estava colocada logo embaixo da bancada do bar. Tudo em ordem.
"Eu, me dá mais uma por favor, não me controlei, ela me batia, mas era arredia mesmo, ela parecia que estava gostando de me arranhar. Eu me joguei por cima dela ali na beira do caminho, bem no mato!" - o homem mais uma vez gesticulando, desceu a mão agora com o copo, por cima do balcão de madeira. Ele ria do acontecido. Rita o observava. Já eram 11:30 da manhã. "Você não vai querer almoçar aqui não, Jorge?"
Rita pegou sua bolsa. Abriu o zíper e a deixou aberta em cima da pia. Pegou uns bifes que estavam na geladeira do bar, o almoço seria bife frito, arroz, feijão e farofa pronta.
"Eu não sei o que deu em mim. O perfume daquela mulher, aquele cheiro, ela queria muito. Na rua depois das onze estava fazendo o que? Ela com certeza estava pedindo, a mulher estava sozinha, eu se fosse o marido dela eu teria vergonha eu fiz mesmo e é isso por que cê tá me olhando com essa cara você acha que eu tô errado uma safada mesmo eu queria ver se é minha mulher aquela vagabunda da Maria me deixou a piranha fugiu com outro homem eu se pego aque..." - O som da voz de Jorge parou de forma instantânea assim que a lâmina perfurou sua garganta. Um filete de sangue, depois um jorro, depois muito mais assim que a lâmina saiu e entrou novamente.
Os passarinhos cantavam ao longe, o ar bucólico do campo cobrindo como bruma o tempo que parecia parado. O silêncio do fim de uma manhã de segunda. As mulheres e crianças se reuniam em torno da mesa, época de férias em casa e os pais como sempre trabalhando fora. O calor parecia dar as caras depois de muita chuva que havia seguido por ali. As nuvem dando lugar aos raios que iluminavam as poças de frente do estabelecimento de Rita. A mulher estava no tanque que ficava em um área na lateral do prédio, ninguém podia ver pois essa área era circundada por tábuas altas, como cercas. Em 30 minutos Rita usou a mangueira e espalhou bastante coisa pro mato ao redor. Usou o cutelo com destreza e jogou partes dentro de caixas com gelo. O freezer de dentro já tinha algumas cheias. O cardápio do almoço havia mudado, ela faria carne de panela.
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