Assistente virtual

Helena, uma mulher solteira e com seus 29 anos, recebia propagandas em seu celular com frequência, só que isso às vezes a incomodava profundamente. Viver online passou a fazer parte da sua vida desde a adolescência. Redes sociais, contatos de trabalho, comunicação via e-mail... a lista era longa. Um mal que na verdade ela estava disposta a relevar, por um bem maior: a sobrevivência em tempos modernos. 

Os algoritmos trabalham no aperfeiçoamento da experiência do usuário, é o que as empresas sempre dizem. A contadora sabia que isso era verdade, mas em parte, duvidava das intenções das grandes corporações. Trabalhando com números o tempo todo,  Helena entendia como cifras constituem parte principal para qualquer negócio, inclusive no mundo virtual. Talvez os cálculos realizados pelas máquinas também fossem utilizados para que os indivíduos permanecessem dentro do ambiente digital. Marketing digital era o presente e o futuro da propaganda.

Pela manhã, Helena sempre lia sobre jardinagem em um Blog muito conhecido, onde os leitores podiam acessar os tutoriais de como manter as plantas saudáveis. Ler sobre o desenvolvimento de uma suculenta e entender a melhor forma de plantio da salsinha ajudava Helena a organizar a mente e se preparar para mais um dia corrido e cheio de tarefas. Antes de pegar ônibus e metrô e enfrentar um dia de trabalho cheio de planilhas e telas ligadas em frente aos seus olhos, era reconfortante tratar de algo que ela considerava "vivo e real".

Em uma manhã de sexta-feira, dentro de um ônibus lotado e onde ela estava sentada - morar longe permitia o luxo de poder encontrar assentos disponíveis  na ida - e com sono, lia as notícias do dia. As mesmas coisas pareciam ocupar as colunas mais acessadas, com algumas diferenças mínimas, o cenário era reforçado: o mundo ia mal. 

Helena segurava o celular com a mão esquerda, e utilizava o braço direito como barreira para impedir seus espirros de circularem. Espirrando com a parte de dentro do seu cotovelo, ela se sentia incomodada com os olhares que eram direcionados a ela. As pessoas não conseguiam fingir que não percebiam, já que a última pandemia havia sido tão devastadora. Na verdade ela não estava doente, era o perfume do homem que estava ao lado que parecia haver provocado algum tipo de reação alérgica. Uma menina que estava em pé parecia não se importar. Os fones de ouvido, que pareciam caros, não tinham fios e com certeza transportavam a estudante para um mundo particular. 

"Eu não ganhava presentes assim na minha adolescência. Os pais estão mimando muito os filhos. Quando estiverem estragados, não adianta mais fazer nada". Helena sentiu uma pontada de inveja da menina. Talvez fosse a sua juventude despreocupada ou os seus fones caros. Os que ela havia recebido com seu celular eram muito simples e não isolavam o barulho ensurdecedor do ônibus. Seria bom ganhar de presente um par desses, melhor ainda se tivesse dinheiro sobrando no fim do mês. 

Mais tarde no trabalho a sua coordenadora perguntou se Helena podia ficar até mais tarde um pouco. Muitos relatórios precisavam ficar prontos até segunda-feira, e o supervisor não estava satisfeito com os atrasos do setor de seguros. O nervosismo e ansiedade eram comuns em um dia de trabalho, sendo esse um dos motivos para ela repensasse sobre suas escolhas profissionais. Enquanto digitava um e-mail, a propaganda do fone que ela havia desejado pela manhã, aparecia no canto direito da tela. "Só pode ser brincadeira isso", Helena pensou, inconformada.

Depois de um dia de trabalho exaustivo, cozinhar não era uma opção atrativa para ela. Com o cansaço já instaurado em seu corpo, comprar comida congelada para microondas era prático e rápido. O microondas precisava de reparo, como tudo naquele apartamento. Depois da separação de seus pais, Helena recebeu muita coisa da mãe, que se casou de novo e fez questão de comprar tudo novo para a nova casa, cedendo o microondas e a geladeira velha para ela. 

"Tomara que funcione", Helena desejava com intensidade, enquanto subia até o quinto andar, pelas escadas do prédio onde morava. O aparelho que ela usava com frequência para esquentar a comida, não funcionava de maneira adequada; os pratos saíam quase queimados ou com partes ainda congeladas. Ela planejava comprar um novo no próximo mês, mas ainda não havia se decidido. Já não aguentava mais as propagandas que apareciam entre as publicações de amigos e os e-mails com mais de vinte opções de microondas; alguns com qualidade duvidosa.

Enquanto colocava a bandeja de macarrão com queijo para esquentar, ela checava as redes sociais, mais uma vez. A sensação de estar sozinha assustava Helena, que desde criança sempre havia se cercado de amigos e familiares. Os seus tios e avós frequentavam sua casa todo fim de semana e a unidade familiar girava em torno de seus pais. Quando eles se separaram, os lados das famílias também se divorciaram. Era triste para ela ver as datas comemorativas chegarem e não receber nenhum convite para um churrasco. Sua mãe ligava toda véspera de feriado, mas Helena não se sentia bem com a nova família. Era como se fosse uma intrusa, alguém que não compartilhava os laços com ninguém do grupo, exceto é claro, sua mãe.


 Era incomum uma mulher independente e solteira que optava por ficar em casa em uma sexta à noite, mas esse era o norma para ela. O tempo de festas e noitadas nem mesmo começara em sua vida, e ela tinha certeza de que não seria aos 29 que mudaria de ideia em relação a ficar acordada a madrugada inteira. Suas amigas de ensino médio, que ironicamente ainda viviam com os pais, a chamavam pra sair e ela dava desculpas. Muito trabalho, doença, TPM, estresse...a lista de motivos era longa; todos apontando para uma explicação maior e mais profunda: Helena se sentia desmotivada desde que seus pais se separaram. O amor entre os dois sempre pareceu algo real para ela, e quando os dois disseram que não morariam mais juntos - na verdade o pai dela havia traído sua mãe - suas esperanças em ter uma casamento feliz diminuíram em muito.

O bipe do microondas informava que o prato estava pronto. O barulho a trouxe de volta ao apartamento, aquele cheiro familiar de queijo e comida industrializada que ela tanto gostava, trazendo conforto a sua mente cansada. Era incrível como a comida podia aliviar a tensão do corpo e até fazia com que seus pensamentos não ficassem tão presos aos seus problemas. O sabor do macarrão com queijo nunca decepcionava. A experiência  seria a mesma se você comprasse no mercado da esquina ou pedisse via correios. Ao sentar no sofá, observando a luz que atravessava os vidros da janela antiga, Helena se sentiu grata pela simplicidade do momento; antes da luz apagar por causa de um curto provocado pelo seu microondas, que por algum motivo às vezes não desligava corretamente e ainda voltava a funcionar quando a porta era fechada. O celular sempre tirando a atenção nos momentos mais importantes.


Um pouco abalada pela noite frustrante que passou, a qual o sindico reclamara por mais de quarenta minutos, perguntando por que ela não tinha comprado um microondas novo ou qual era a dificuldade de tirar os aparelhos da tomada, ela se sentia exausta e sem vontade sair da cama; só havia dormido três horas. Hoje ela não leria o blog dos jardins e não estava disposta a receber mais propagandas de microondas, então, desligou o celular antes mesmo de sair para o trabalho.

- Eu te mandei mensagem a manhã toda, fiquei preocupada sabia?. A coordenadora de Helena parecia abalada, com uma expressão um pouco mais consternada que o normal. Trabalhar aos sábados deixava qualquer um estressado, mas não era pra tanto.
 - Desculpa, é que eu não estava com o celular ligado, tive uns problemas ontem em casa - respondeu ela sem a menor preocupação. 
- Ah, sim, deveria ter avisado, as pessoas se importam com os outros. Não sei o que passa pela cabeça dos funcionários que não dão satisfação. É uma falta de respeito! Olha, não se esquece de passar na minha sala antes de sair hoje, preciso falar com você. - a voz da mulher agora falhava, era visível seu estresse.
- Okay, da próxima vez eu te aviso quando eu estiver com energia pra carregar o celular - Helena voltou para sua mesa, sabendo que era arriscado falar assim com uma superior, especialmente a Lúcia, que parecia estar sempre nervosa e sobrecarregada. "O que será que ela quer falar comigo", ela remoeu o pensamento durante o dia inteiro de trabalho.


Às 17 em ponto ela e mais outros três colegas esperavam do lado de fora da sala da coordenadora. Quando a porta se abriu, Lúcia que prezava pela pontualidade chamou Tadeu, o menino que tratava das cópias para sua sala. Cinco minutos depois ele saiu e Helena sabia o que ia acontecer; não era bom. Quando entrou, a sua colega de trabalho pediu para ela se sentasse, o rosto com um expressão neutra, quase que indiferente.
- Helena, te chamei hoje  aqui por que preciso informar sobre uma decisão da gerência de pessoal, em conjunto com a diretoria geral. Visando cortar os gastos e pensando na manutenção da maioria dos postos de trabalho aqui na empresa, foi decidido que seus serviços não se fazem mais necessários.

Por um momento foi como se ela não sentisse nada. Uma nuvem baixou em seu olhos, as palavras de Lúcia soavam distantes e ao mesmo eram nítidas aos seus ouvidos. A impotência diante do momento e a explicação convincente de sua coordenadora, não abriam possibilidades de diálogo. Se ela fosse uma criança, Helena começaria a questionar e chorar ali mesmo - essa era a sua vontade no momento - mas a vida adulta era bem diferente. Ela simplesmente acenou com a cabeça e perguntou: 
- É só isso? Posso me retirar? - a expressão no rosto de Lúcia agora confusa, sem entender o porquê de tamanha resignação.
- Pode sim. Lembrando que a empresa fará um acordo que seja vantajoso para ambas as partes. Considerando o fato de que você trabalha aqui há um ano. - seu tom agora formal e cheio de certeza.


- Depois de todas aquelas noites em que você ficou depois do horário? Que bando de  pilantra esse pessoal! - Sua amiga Camila soava inconformada ao telefone. Helena agora estava no ônibus de volta pra casa. Na volta ela sempre ficava em pé. Como saía perto da hora de maior trânsito e morava longe, existiam duas escolhas: esperar em uma das muitas outras filas para os próximos ônibus e chegar bem mais tarde ou entrar na próxima condução a sair, que normalmente já se encontrava lotada.

- Pois é, amiga. Eu não sei o que vou fazer agora. O aluguel tá aí e os boletos não param de chegar. Tudo bem que tenho o auxílio e ainda estou de aviso prévio. Pesquisei aqui e vi que eles têm que me manter por mais um mês pelo menos.
- Amiga eu te ajudo no que der, tá bom? Agora tenho que ir, minha aula vai começar daqui a pouco. se cuida!

Helena voltou para o celular após desligar. O telefone estava com bateria por que carregou durante o dia inteiro de trabalho. As redes sociais se mantinham intactas: antigos amigos comemorando formaturas, sua tia postando GIFs brilhantes de boa noite e um ex namorado da época de escola atualizando status para 'Em um relacionamento sério'; tudo dentro do normal. 

Seus olhos não podiam acreditar no que viam. Entre um story e outro, uma propaganda de dez segundos anunciava a promoção de cadastro para novos membros com 50% de desconto, em um site conhecido de busca por vagas de emprego. Helena, que agora se segurava com toda a força pra não cair por causa de uma curva em velocidade feita pelo motorista, começou a rir em alto e bom som. As pessoas que estavam em volta observaram a mulher jogar o celular pela janela com toda força; o aparelho se destroçando por debaixo da roda de um caminhão. Algoritmos ''se espalhando'' pelo asfalto duro e quente.

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