Deriva


- Aqueles ratos de novo. Destruíram toda a fiação e ainda causaram um curto. O pai parecia estressado, era a quarta vez que isso acontecia em menos de dois meses. 
- Pai, eu não tô me sentindo muito bem hoje, acho que dava pra você ir sozinho... - eu disse, tentando me livrar do trabalho.
- Que sozinho o que! Dá muito trabalho trocar toda a fiação, da base até a entrada das terras Junhém. Você vai! - com meu pai não tinha conversa.
                                                           
Trabalhamos juntos na manutenção das partes externas dos servidores de Junhém - Um dos últimos condomínios de altíssimo padrão que existem no estado - e mais uma vez os ratos causaram um curto após roer os fios. A região do entorno está cada vez mais cheia de lixo e a infestação de ratos já está chegando ao bairro fortificado. A população de casas da marginal, onde eu moro, fica muito longe do bairro chique; cerca de dez quilômetros de distância, de carro. Todo o trabalho técnico para a manter a estrutura física da internet dos condomínios funcionando é realizada por moradores das ruas do centrinho - um bairro de moradores composto basicamente de famílias com nível médio em escolaridade. Os pais daqui têm orgulho dos filhos que se formam em técnico de manutenção, sendo o ápice da vida acadêmica conseguir uma graduação que certifique esses jovens como sendo aptos ao trabalho de 'suporte'. Eu acho isso tudo no mínimo deprimente.
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O ano é 2547, muito tempo depois da derrocada de recursos naturais até um nível crítico, que aconteceu já na entrada do segundo século do novo milênio. Como era de se esperar, grandes empresas privatizaram espaços gigantescos com o aval de governos democráticos, antes que a coisa piorasse. Baseando-se na premissa de que isso ajudaria o desenvolvimento das áreas que não eram incluídas no projeto inicial - áreas pobres - as empresas conseguiram o apoio dos presidentes que pensavam no bem estar de uma ''maioria''. A prática se revelou ineficiente e mais uma vez o abismo entre os muito ricos e os pobres aumentou e se aprofundou. Os pobres e miseráveis, na verdade, nunca foram tão numerosos, já que as sucessivas crises econômicas e décadas marcadas por revoltas e golpes de Estado acabaram por matar milhões, de fome.

Uma série de investimentos em áreas consideradas como vitais para a retomada do crescimento econômico, aliados ao desenvolvimento de super empresas transnacionais que produziam bens descartáveis de consumo, resultou  no colapso mundial do sistema econômico, em 2178. A maioria dos recursos naturais abertos às iniciativas do governo já haviam esgotado. 

Os governos pensaram que  se fortaleceriam se estivessem unidos ao capital. O que aconteceu foi que o enfraquecimento das instituições democráticas chegou ao ponto de ruptura, fazendo com que a maioria dos países de terceiro mundo deixassem de existir na prática. Organizações internacionais perderam a força depois dos conflitos da virada do terceiro século, e os países que continuaram a existir, mantiveram uma estrutura governamental cada vez mais simplificada - a pedido das grandes empresas que detinham as terras onde os últimos recursos disponíveis se encontravam. As recomendações dos bancos eram cada vez mais ousadas e foi em 2350 que os últimos países com democracias ainda em vigor, aceitaram um acordo para receber os recursos que eram transferidos das grandes empresas. A promessa era de que os presidentes em exercício promoveriam a modernização dos conceitos de direitos básicos, tendo como mote a célebre frase: "Comida é mais importante pra vida!".

Depois de cinquenta anos, os níveis de poluição e a falta de recursos básicos para a manutenção à sobrevivência de muitos, fez com que as empresas que restaram mudassem mais uma vez o plano de ação.  Com cada vez menos consumidores e com mais exigências por parte da classe média alta e dos bilionários, agora o serviço vendido por eles era o de "Assistência de vida". Necessidades essenciais como água , comida e moradia começaram ser comercializados de forma a excluir toda a população que vivia fora das terras com recursos; era a cartada final do capital para obliterar os governos independentes que ainda existiam.

Quase 150 anos se passaram e o que vemos é uma situação curiosa. O mundo agora é dividido entre grandiosos espaços vivos e com com o máximo de cor possível, onde as pessoas que ali vivem agem conforme padrões estabelecidos pela entidades benfeitoras internacionais - os últimos monopólios existentes - e trabalham para  as estas em cargos que vão do trabalho mais braçal ao desenvolvimento de novas tecnologias. Uma rede de cooperação internacional entre as dez grandes comunidades estabelece uma troca de informações contínua e equilibrada. Outro recurso valioso no mundo atual são os bancos de dados e o controle dos últimos servidores disponíveis, desencadeou mais uma série de confrontos armados  que duraram quase dez anos.

 Os funcionários que trabalham nas estações são vitais para as nossas sociedades. Eles vivem lá fora por um motivo. As doenças os atacam de forma implacável e não é de admirar que agora apenas dois mil homens trabalhem na manutenção externa da porta sul de Junhém.

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Eu odeio esse trabalho. Todo dia é a mesma coisa. Por causa dos meus problemas respiratórios, eu tenho dificuldades para acompanhar o meu pai, ele é rápido. Sinto como se ele estivesse se esforçando muito para manter o ritmo, por que aos 40 anos ele já é um idoso. A qualidade de vida aqui é uma das mais baixas e a esperança de uma aposentadoria dentro das comunidades fortificadas é o que move muitos dos homens que vivem por aqui. 

Nasci em uma casa na rua principal de centrinho, uma comunidade que une pessoas remanescentes das últimas vilas de resistência que existiam. Meu pai me contou que esses movimentos rebeldes não aceitavam o acordo com o líder do centrinho, e foram em grande parte dizimados pelas tropas de Junhém. Eu sempre achei esse nome estranho e na verdade nunca entendi muito bem. O condomínio que é do tamanho de um pequeno estado, fica no território onde antes o Brasil ficava. Engraçado pensar que um país inteiro sumiu... bom, é um pouco triste até.

Estudei o bastante para aprender a ler e escrever e isso já me destaca entre a maioria dos meninos da minha idade. Ao todo, a população de Centrinho é de 300 mil pessoas. Uma das maiores comunidades marginais que existem no mundo atual. O meu povo sobrevive plantando e comendo o que planta. Os animais que eram mantidos morreram pela falta de alimento. A água é enviada por Junhém sempre quando possível e o sistema de abastecimento permite que vivamos de acordo com diretrizes mínimas possíveis. Cada um é responsável pelos outros ao seu redor e todos se comprometem com a sobrevivência da comunidade. Aqui, a consciência do grupo é maior do que a identidade individual, sendo a filosofia de cooperação uma das bases de nossa pequena sociedade.

Eu não conheço muito sobre a história da minha família, mas tudo que aprendi foi com o meu pai e os outros idosos do bairro. Eles são chamados de biblioteca viva, já que guardam conhecimento de muitas gerações; algo bem semelhante aos povos ancestrais que viviam por aqui. As últimas bibliotecas existentes foram queimadas nos  conflitos de  derrubada das rebeliões da resistência, com o pretexto - segundo a aliança - de que os espaços eram utilizados como ponto de encontro para os terroristas. 

Ir até Junhém nem sempre é garantia de que você vá conseguir acessar o acervo principal, que conta com quase cinquenta mil títulos. Antes de desaparecer, o Thiago sempre conseguia ultrapassar toda a burocracia pra fazer pesquisas. A família dele foi denunciada por que mantinha um esconderijo com centenas de manuscritos e cópias de livros em baixo do barraco onde moravam. A liderança de Junhém não admitia movimentos subversivos e dava cursos para todas as idades falando sobre a importância da união entre as sociedades marginais e as cidades fechadas. Para eles, era um sistema perfeito que ao se fortalecer, desenvolveria mais uma vez uma sociedade onde todos pudessem ser contemplados de forma igual em suas necessidades. Muito esperam  por esse dia, mas eu não.

Eu tive poucos amigos na infância e Thiago era um deles. Ele é o que as pessoas costumam chamar de gênio.Uma tarde brincando com ele era uma viagem com descobertas incríveis. As coisas que entendo do passado me foram reveladas por ele através de músicas, conversas e brincadeiras. Nunca me cansava de ir à sua casa, mesmo que eu trabalhasse de dia e estivesse lá à noite. Meus olhos quase fechavam de tanto cansaço, mas eu me sentia totalmente atraído com as histórias contadas naquele lugar.

Quando entramos na adolescência eu comecei a trabalhar todo dia ajudando o meu pai. Ele queria que eu fosse parte do suporte, já que o seu trabalho era considerado um dos mais prestigiados pela população e era uma tradição passar essa profissão para a descendência. A última gripe matou mais da metade do técnicos e os que restaram agora são considerados heróis. Eu sinto saudades do Thiago e de sua família, mas nunca mais ninguém os viu desde que as tropas destacadas de Junhém destruíram sua casa e levaram tudo que encontraram. Lembro do dia em que estive lá logos depois do ocorrido. Os meus olhos de 8 anos de idade não entendiam o que viam, mas agora, prestes a fazer 21, percebem que todos foram executados e seus pertences queimados; aquele era um cenário de destruição.


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