Ovos de formiga
Gustavo trabalhava em um mercado no centro da cidade como estoquista, das duas da tarde até às dez da noite. Ele chegava em casa sempre muito cansado e com vontade de se jogar na cama. Não o fazia de imediato por que sabia que ir dormir sem tomar banho era algo visto como 'porcaria'. Morando sozinho há dois anos, ainda era comum sentir os olhos de sua mãe observando suas atitudes. Ele sentia falta de casa. Muita falta mesmo. Admitir isso seria uma derrota que não estava disposto a aceitar tão cedo.
A casa que ele alugava era na verdade um espaço com dois cômodos; um quarto/sala/cozinha e um pequeno banheiro. O lugar fazia parte de uma casa maior, em uma rua calma, de um bairro popular e afastado. O preço era o que Gustavo podia pagar e isso era o suficiente para que ele se sentisse um adulto formado. Ser independente revelou-se uma aventura enorme, principalmente quando a Vanessa, sua querida ex-namorada, decidiu ir embora levando o fogão, a mesinha onde eles comiam e o colchão. Logo ela, que tinha sido um dos grandes motivos para que ele decidisse sair de casa. ''Talvez não fosse amor de verdade'' - pensava ele.
Era uma segunda-feira de um verão muito quente. Ele estava se sentindo um pouco febril ao chegar do trabalho, mas o banho o esperava. Ao entrar no box do banheiro apertado, Gustavo observou uma formiga andando pela parede à sua esquerda; ele tinha medo desse inseto, que para muitos é inofensivo. A formiga subia até um buraco perto do teto, onde entrava lentamente. Logo após perceber a primeira, ele viu muitas outras fazendo uma espécie de trilha, algumas delas com ovos - era o que parecia - em suas patas. Não sabia a qual espécie elas pertenciam, mas eram das grandes e dóceis, do tipo que passariam por cima dos seus pés sem que você percebesse. Era no mínimo preocupante perceber que as formigas já haviam criado algo parecido com um ninho dentro da parede, mas desde que aqueles insetos mantivessem certa distância, essa convivência duraria um bom tempo. O medo não superava a falta de iniciativa de Gustavo.
Ele então pegou o celular pra colocar sua playlist de banho. Morar sozinho podia ser muito solitário e ele não gostava do silêncio daquele quintal. O dono da casa estava de férias e como o imóvel era o último de uma rua sem saída, não se ouviam barulhos por ali - especialmente à noite. O smartphone não estava conectado à internet, devia ser um problema com o modem. "De novo essa bosta!" - gritou Gustavo, que conformado com a situação começou a tomar banho.
Olhou para o relógio quando deitou: já era dez pra meia-noite. Com a conexão restabelecida, ele podia assistir a um ou dois episódios da sua série favorita, mas não o fez. A lembrança das formigas fazia Gustavo estremecer. Será que havia algo morto no forro da casa?, ou podia ser que as paredes já estavam podres e úmidas por dentro, ele definitivamente não sabia. Um site dizia que uma alta incidência de insetos em uma casa, podia demonstrar um desequilíbrio energético no ambiente ou até mesmo inveja. ''Inveja desse buraco? hahaha!''- A ideia de que alguém talvez quisesse estar em seu lugar, o fez rir mais do que deveria.
A pesquisa também informava que muitos insetos aparecem durante o verão e inverno, época em que as temperaturas são extremas. Isso explicava em parte o motivo para que tantas formigas estivessem em seu banheiro. Gustavo então se levantou da sua pequena cama e andou até o banheiro. Ao acender a luz, um calafrio correu dos pés até a nuca. Uma formiga gigantesca vinha em sua direção, junto com outras cem que pareciam meros soldados marchando com um objetivo. Ele correu pra fora do banheiro o mais rápido que pôde, gritando o mais alto que conseguia.
A cabeça da formiga gigante, que era do tamanho de um cachorro pequeno, já saia porta a fora. O terror tomou conta do homem, que levado por um impulso irracional, deitou-se na cama e jogou o cobertor por cima. "Isso só pode ser brincadeira. Não é real!'' - Gustavo falava pra ele mesmo como um mantra. Foi aí que sua pele congelou. A formiga gigante estava subindo na cama, com suas patas finas e duras. Com cada músculo do corpo enrijecido e com os olhos bem fechados, ele tentava afastar o que sentia em suas pernas e agora em seu peito; a formiga estava escalando seu corpo. Junto com as formiga gigante, todas as outras agora estavam em sua cama, parecia uma reunião.
Gustavo não sabia quanto tempo havia passado, mas parecia que agora a formiga gigante se encontrava bem em cima dele. As menores já cobriam o seu corpo quase que totalmente. Elas entraram por debaixo do cobertor e agora caminhavam de um lado para o outro, em uma marcha incessante que parecia sem destino. Eram milhares e milhares de formigas, ele podia sentir. Quando a marcha de insetos alcançou seu rosto, Gustavo teve que abrir os olhos e tirou o cobertor de cima de sua cabeça em um impulso violento. A cabeça marrom de uma formiga o encarava por cima do peito. Os olhos fixos e sem expressão fizeram com que ele gritasse desesperado. O terror era tão grande que ele não conseguia se mexer. A formiga gigante então começou a mexer suas maxilas e o som que veio de dentro do inseto, fez a cabeça de Gustavo girar. "Viu? Você é muito porco, é por isso que essa casa está cheia de formigas!" - a voz de sua mãe nítida como se ela estivesse ali bem ao seu lado.
Ele então acordou gritando, seu corpo todo suado. A lista de compras agora incluía um inseticida.
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