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Mostrando postagens de 2019

Devaneio

No momento em que Lúcia percebeu que aquilo tudo iria se repetir mais uma vez, ela desistiu de tentar entender o motivo. Marcos não queria ajuda, não da forma como ela pensava que ele queria. O comportamento autodestrutivo agora fazia sentido, o que não fazia com que as coisas fossem mais fáceis, de forma alguma. Lúcia decidiu não contar para ninguém sobre o que havia acontecido na última sexta-feira pois ainda sentia amor pelo seu marido. Amor esse que ela pensava agora não ser algo saudável e nem mesmo poderia ser chamado assim; talvez dependência seria a palavra certa. Só que infelizmente foi essa a forma com que Lúcia conseguiu lidar com a perda do filho do casal. A norte de uma criança não traz sentimentos bons de forma alguma. É como se uma promessa muito importante tivesse sido feita, e não sendo cumprida, ainda deixasse um grande "e se" pairando no ar. Outro motivo para Lúcia não querer denunciar o seu marido por agressão, se baseou na ameaça clara que ele fez a ela. ...

Vívido

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De um momento tão quente algo útil pode sair. Olhando o entorno, sem palavras, tudo pôde ser visto, assim sem filtro.  Uma vez mais, de outra forma, uma forma totalmente nova em sua maneira. Sem pressa e sem pressão, cada detalhe se fez real mesmo sendo tão igual a todos os outros. Talvez fosse mais fácil não perceber, mas tudo estava ali, na minha frente, se apresentando de forma clara e vívida.

Vermelho

Cubra em vermelho, Para que possa deixar bem claro que está ali. Mas só você saberá. Faça todos acreditarem Que aquela é uma cor escolhida ao acaso; Sem muito pensar. Siga sem perceber o que realmente se esconde. Não pense em jamais abrir o que está ali. Continue tentando fazer parecer, Que o que não se vê não tem nada a ver com o que está por vir. Olhe atentamente para o que se esconde. Mentalize o desejo disso tudo sumir. Olhe incerto ao que está para longe;  Faça a audiência começar se iludir. Suba ao ponto mais alto a procura de cores; Invente momentos que não existem lá embaixo;  Encontre motivos para suplantar o implante; Mas cubra em vermelho, é melhor pra você.

Escuro

No escuro o barulho mecânico  Se assemelha ao vento forçado  As bordas emitem caminhos externos Madrugadas repletas de limitações de concreto Sons emitidos por bichos noturnos Que vivem em canto dormindo no sol Escuro que limita visão serpentina  Consiste em não ver e assim mesmo ser O calor e o escuro se firmam presentes  A manhã já vai chegar à despeito da vontade Dizer que o escuro é um ponto opressor Demonstra desconhecimento de quanto ele nos sabe.

Dois

Canção Como uma música bem cantada em ritmo perfeito Os tons em verde, azul e laranja, tudo lindo O amor que expressa é através das notas, Que relevam a dor e a sensação de calor. O sentimento se extravasa através do que é ouvido Ritmando perfeitamente a harmonia do que se sente Simplesmente alcançando o cerne do que é tangível  A melodia embala e se faz presente, sendo resultado de tudo em um só  Momento. Súbito De súbito eu não percebo o que isso pode ser, mas na verdade a dor se faz presente de uma forma muito subtil. Ela se espalha sem se apresentar de forma clara, o que a faz ser mais reservada e precisa. Tem dias que grita e outros fica em silêncio, porém sempre no mesmo lugar. Estagnada. Na verdade, agora parece que faz parte de mim e não sei se isso é bom ou o ruim. Pensando pelo lado.do presente sem garantia de futuro, é aceitável. Agora, pensando sobre um futuro em que tudo vai piorar de forma gradual lança incertezas grandiosas sobre como ela, a ...

Antes e depois

Momento  O sabor amargo no fundo da boca, prazer incessante que corta o torpor. Maneira obscura de perceber quem vê, recanto obsceno do próprio querer. Suspirando por mais sempre sendo intenso, renovando as forças em um novo querer, subindo o sentido daquilo antigo, Revirando o motivo do que pode ser. Pós  O brilho nos deixa, cintila intenso. Momento propenso, sempre claro, comum. As cores emergem mesmo na escuridão tátil, Sempre vistas unidas ao que era um. Sensação amorfa, disforme, que se despede. Livre de amarras se vai ao esmo. Simples formas de ânimo se perdem no toque, Enganadas por fim pelo puro desejo.

Lucidez

Era o momento propício para que ele continuasse a montar os padrões dentro de sua mente. O calor era insuportável, e a noite parecia se arrastar junto com os minutos que nunca passavam. A cada respiração, Carlos lembrava do que deveria fazer. O momento era esse, ele precisava contar aquilo que tinha visto, mas como? A verdade é que nem ele sabia como faria isso. O dia tinha sido intenso demais para que as coisas fizessem sentido e esse era tempo que ele tinha sozinho; um tempo de desespero e confusão. Aos doze anos, Carlos sabia que não era um menino normal, ele pensava demais nas coisas. Tudo que vinha a sua mente era excessivamente detalhado e muitas vezes confuso, e sua visão era afetada por aquilo que ele pensava. O menino podia ver o que quisesse em sua frente, ele só precisava mentalizar o que queria ver. Isso se tornou um problema somente quando ele não conseguia controlar mais as visões, era como se agora todas elas aparecessem sem ser convidadas, não havia mais um cli...

Carta

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Querida filha, lembra desse dia? Nós nos divertimos muito nessas férias, não foi? Te escrevo esse recado como forma de mais um adeus, pois sei que no últimos momentos sempre estivemos juntas e isso é algo pelo qual sou grata. Nossa vida juntas foi de amizade e cumplicidade antes de tudo, mas sei que por ser apenas uma criança, você ainda não entenda tudo o que eu quero te dizer, por isso pedi à sua tia Clara que só te mostre isso quando você for madura o suficiente. Eu e seu pai sempre vivemos sozinhos e nos conhecemos quando já éramos avançados em idade. Eu fiquei grávida de você quando a maioria dos médicos não recomendaria mais que eu tivesse um filho, mas você veio, e graças a Deus que você veio! Eu não imaginaria que eu teria uma filha tão inteligente e cheia de bondade como você. Mas o motivo dessa carta não é o de reforçar as qualidades que eu sempre reconheci em você. Preciso te dizer uma coisa que talvez seja muito difícil, mas é necessária. O que preciso te contar diz resp...

Perspectiva

A tarde daquele domingo seguia o seu caminho natural, sem muitos acontecimentos importantes. O menino andava pelas ruas do bairro procurando algo para fazer ou com quem brincar, sem sucesso. As nuvens no céu revelavam que a chuva chegaria ainda naquele dia. O barulho de motos e de pessoas conversando dentro de seus quintais era como uma trilha sonora que pecava pela falta de originalidade. O menino seguia andando pela rua, sabia que se voltasse para casa seria pior, apenas assistiria à TV ou brincaria com seu irmão mais novo, e isso ele não queria. Além de também encontrar o seu pai, que todo fim de semana bebia e arranjava confusão com sua mãe. Ao se aproximar de uma bifurcação, o menino escolheu o caminho que não dava em lugar nenhum e seguiu em frente. Aquele trecho era ladeado por cercas que limitavam campos extensos onde tudo que podia ser visto era a grama. Momentos como esse, já eram muito raros em sua rotina. Ele já não costumava brincar na rua e mudara de escola fazia po...

Se vive vivendo

O que caminhamos define nosso caminho e nosso caminho se faz sempre novo e começa de novo sempre sendo puxado para frente. Nossas experiências nos tornam outra pessoa e desfazem a nossa visão pelo simples fato de sermos e estarmos. Os gestos e os nossos desejos são cópia perfeita do que realmente somos e o que podemos ser na realidade, sendo muitas vezes distantes do nós sentimos e identificamos como sendo ''quem eu sou''. A escolha de viver e de não viver não se pode ser medida pelo simples ato mas sim pelos momentos vividos. Cada detalhe que se esboça e se concretiza nos afasta do que foi sentido instantes antes. Não se vive sem viver. Sempre se vive, sempre. A escolha só muda dependendo da ótica utilizada. Todos estamos vivendo independente do que façamos e observar que os seres se completam e se anulam igualmente é precioso e também belo. É assim que estamos aqui, observando a grandiosidade das coisas e muitas vezes esquecendo-as por completo, sendo inúteis ...

Um começo que se faz

 Todo dia que se passa é cheio de vida e com encantos que se fazem ouvir de dentro das cores das flores. O amor que se encontra em cada gesto é perdido e encontrado nos recantos escuros que abrigam as mais diversas ilusões já criadas. Tudo se molda a partir de um ponto onde as minúcias do prazer são reais e distintas. Nada se desfaz sem que o ápice dos sentimentos se condense em uma única só voz que diz "Viva!'' As luzes de outono me aquecem profundamente e me fazem sentir alegre e radiante. As cores que se desvelam em um único tom cheio de intensidade, não mais faz queimar e isso abrilhanta a vida que existe. As tardes desse tempo tão alegre não se resumem a esperar a noite chegar mas sim o de desejar que todo o momento se resuma ao momento que move-se devagar. Uma tarde eterna de outono, era isso que eu queria. As dores e entoações envolvidas em espasmos sem coordenação e que parecem ouvir um som misterioso não se entendem sem antes sentir. É preciso abrir a ca...

O pedido

   Giovana cuidava do seu pai doente desde que sua mãe havia ido embora de casa, fazia 6 anos. Com seus 26 anos de idade, ela ainda não se sentia pronta para encarar as responsabilidades da vida adulta. Mesmo assumindo os cuidados de seu pai, parecia que tudo mais era muito mais do que ela podia fazer. Sempre que pensava em dar um passo adiante, a imagem do seu pai preso à uma cama a assombrava e diluía qualquer tipo de determinação que ela poderia ter.   A doença do seu pai já começava a deteriorar sua memória e muitas vezes ele nem a reconhecia. Os ataques de agressividade estavam cada vez mais recorrentes, e a distância de sua casa em relação às outras na mesma rua não ajudava muito na hora de pedir ajuda. Na cabeça de Giovana seu pai era uma grande provação que Deus havia permitido em sua vida, e se ela conseguisse ultrapassar esse desafio, conseguiria finalmente se ver livre daquele lugar.    Desde os dez anos de idade ela sempre odiou tudo que en...

Carta

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Olá Primo Kabir, Como vai?   Estive sozinho desde o dia em que meus pais morreram a muito tempo atrás e isso acabou por fazer parte da minha vida. A solidão não me incomodava muito a não ser pelos dias onde todos se reuniam e comemoravam uma data especial como o natal, por exemplo. Os dias se passavam com um ar melancólico e eu lembrava do tempo em que vivi nas terras áridas. Um dia fui uma criança muito feliz e que tinha amigos, mas esse tempo realmente se foi. Logo quando nos mudamos para esse lindo lugar de florestas, campos e rios, meus pais se foram e deixaram um vazio que eu por muito tempo achei que não iria suportar.   Talvez eu seja diferente da maioria das pessoas que conheço ou talvez eu negue que eu seja tão comum como todo mundo. A verdade é que não tenho certeza ao certo se sou apenas rabugento ou gênio incompreendido, isso realmente fez parte dos meus pensamentos durante vários anos. Agora o que resta é a certeza de que passarei os últimos dias com a ...

Rotineiro

                                                                                   Joanna trabalhava como coletora fazia vinte e cinco anos. Seus cabelos grisalhos revelavam sua idade e seu corpo já dava sinais de cansaço. Em julho ela faria cinquenta anos de idade e isso a deixava muito feliz, mesmo que a ideia de completar meio século a incomodasse um pouco. O trabalho desempenhado por Joanna era um dos menos valorizados e um dos mais importantes dentro das sociedades paralelas. Basicamente, ela coletava os corpos de pessoas mortas em qualquer ambiente no qual a morte  ocorresse; daí o cansaço e as dores enventuais nos joelhos. Sua roupa com proteção e de cor chumbo era larga o suficiente para que seus movimentos fossem livres para o trabalho pesado. Essa era a vid...