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Mostrando postagens de 2021

calor

       Eles já haviam estado naquele restaurante mais de dez vezes nos últimos dois anos - Gustavo adorava o ambiente, Fernanda não. A construção ficava em uma praça pública, em uma área mais reservada rodeada por árvores. Para a jovem noiva prestes a se casar, a sensação de exposição era incômoda. Os dois estavam ali para comemorar a promoção de Gustavo para o cargo de supervisor de marketing digital da empresa onde trabalhava. Cargo muito bom e que pagava muito bem. A noite em questão estava movimentada, com muitas mesas cheias e o salão lotado. O casal teve de sentar em lugares improvisados fora do restaurante, na área externa, dentro da praça.     O pedido sempre era o mesmo quando iam ali: macarrão com molho carbonara e uma taça de sorvete para os dois no final. A comida era boa, não havia do que reclamar, porém o serviço não era tão rápido e os garçons um pouco antipáticos. Apesar disso, Fernanda adorava a companhia de Gustavo. Ela costumava dize...

too personal

Imagem
 Eu me encontro parado esperando Tem dias que o frio consome  A cada passo eu volto para o ínicio Estreitando a distância entre eu e meu fim Nada preenche os momentos de ilusão Cada vez mais absorto em pensamento cíclicos Tomara que amanhã faça sol Queria que fosse sexta-feira O choro perambula por trás dos olhos Se nega a brotar e correr Às vezes aparece úmido Tento mas não consigo mais sentir A chuva caiu durante dias Fazendo o mato ficar forte e mais verde O céu obscuro revelava A massa que se encontra dentro de mim Não sei como consigo viver assim Continuando sozinho sem prestar atenção Idealizo demais quem eu sou No fim acabo escolhendo o nada A montanha russa de emoções não tem mais graça,  eu queria que ela parasse. Mas se ela para eu não consigo mais andar em linha reta Desaprendi a esperar menos das coisas. Escrever me ajuda a pensar sobre isso Essas coisas que me afligem e me deixam acordado Não penso muito em mudar drasticamente O trauma se instala e acaba deix...

abraço

Um abraço pode se eternizar  Momento único de conexão Acalma os corpos e flui as vidas Duas faces voltadas para a mesma união O abraço reforma pontes Estreita caminhos antes destruídos Libera as dores que foram estabelecidas Levanta o peito de quem está caído Abraço que desfaz os nós Arruma as vias que estão tortas Cruza as almas em um só canto Abre os corações como portas O amor contido que o abraço libera Sentença de intensa alegria Transforma o mundo de quem está ali Tocando um ao outro, perfeita harmonia

triste fim

As coisas que eu deixo pra trás São como nuvens que pairam sobre as árvores Espessas formas que encobrem o meu céu Escurecendo os rios e os mares Esses momentos que eu não quero mais lembrar As inconstâncias que povoam a minha mente Surpreendendo a cada passo, ao pesar Murmúrios finos guardados inconscientes Os caminhos me escurecem as canções Separando-me do resto do mundo Sufocando a melodia da alma Descarte total de um universo profundo Depois no espelho eu me pego a observar As marcas fortes que a vida me deixou Em um lampejo vejo aquela criança Que um dia esteve, e o desencanto terminou Apenas torço para que o mundo dê voltas Ideias tolas se despeçam de mim Estranhos cantos se calem de vez E que o eu menino volte para perto enfim

adormecer

Me encontro deitado em meio a uma relva turva Zumbidos de insetos elétricos na primavera O ritmo tremendo imposto pelo dia Reverbera em meu sangue e agita minha alma Percebo que a luz inunda o ambiente Momentos de silêncio com o corpo cansado Aberto ao momento deixando-se levar Pouco suspenso em nuvens de calor Fecho os olhos e vejo o escuro da noite Descendo até o ponto onde o coração repousa Pensamentos mais lentos se unindo em côro  Escadas que alcançam a escuridão sútil

at my worst

As casas estão molhadas As ruas também Esquinas cheias dágua Tudo transborda O vazio está por dentro Por fora a água inunda Lava a poeira Os céus abertos Trovões estridentes ao fundo As gotas atingindo o chão O ar preenchido por sons Aguaceiro que cai do céu Calor ainda se sente Parece que o verão está aí Inverno em último suspiro A primavera quase a chegar A mente se encontra cheia Pensamentos com cores escuras O peso do corpo na cama A cabeça instável e sonolenta

natal

Já é tarde e eu passo por ele.  O gorro de papai Noel demonstra que ele está perdido, não sou só eu. Ele revira as caixas do lixo de alguém, lê anotações. A impressão que dá é que ele procura algo específico. Ele me vê e me cumprimenta. - Boa noite. - Boa noite - eu respondo. Eu sigo o meu caminho. Ele continua em sua tarefa de forma calma e despreocupada. Talvez ele encontre o que procura, talvez eu também algum dia ache. Quem sabe? Ou talvez não exista nada de valor ali. Estamos os dois procurando no lugar errado.

life is a silver line

  Os outros estão ali, é óbvio Mas será que eu me importo? Não. Absolutamente não.   No final estamos sozinhos e é isso. Observando cada centímetro de nós através dos outros. Isso dói. Estou aprendendo a não me importar.   A revolta é clara, mas por que? Não sei e nem quero saber. Vou andando tentando desviar do ódio. Isso já basta.   Alguns dias não vou conseguir, Mas aqueles exitosos serão belíssimos. Já vivi muito desse drama, não quero mais pra mim. O que peço, é simples. Me deixe em paz em uma manhã de outono.

I can die any slower than this

Esses símbolos não significam nada Todos eles, não existem sem uma referência Não falam Todos têm essa eterna carência De cuidar dos outros que não pedem ajuda Vigiam Sempre andando de um lado para o outro Todos nós fazemos isso Queremos ver sangrar É isso que nos faz (faz?) Humanos. Não se importavam antes Continuem não se importando Se calem Vocês só morrem de uma forma diferente Obrigado

nuvens de diamante

Muito difícil colocar em palavras Aquilo que não sai pela boca Inunda a pele com lágrimas Deslizando por uma via outra Eles parecem pertencer ao mundo Unidos em ritmos e canções Agora aqui esse ser imundo Sozinho atrás de tantas ilusões Surto que toma conta e enche o peito Derrama as ânsias e provoca dor O olhar não nega o que é direito Queimando por dentro, puro ardor O mundo escurece e as cores somem Pesadas cortinas fecham a visão O sabor enfraquece, os dedos doem Coração massacrado em cama de algodão Sem querer se recompõe e continua a lida Esperando pela próxima agitação Continuando a ciranda da moenda infinda Girando ao centro, esperando redenção No fim um dia tudo isso vai dissolver O tempo passado perdendo o sentido Marcas eternas tatuadas na mente Acompanhando sempre mesmo tendo partido A dor acompanha o silêncio também As rimas de hoje sem eira nem beira Antecipando o dia que amanhã vem Amando alguém mesmo que esse não queira  O sono se instala nos olhos primeiro Suavizan...

ancient

  “Você promete que vamos em direção à lua quando a criança nascer?” – A filha de Sod dos coletores perguntou mais uma vez ao seu amado. Todos os dias de lua cheia eles marcavam de se encontrar no mesmo lugar. Como a filha de Sod era prometida a Oti, eles ainda não podiam estar juntos na frente de todos. O bebê que a menina esperava estava para nascer e a cada dia a ansiedade de Sid, como sua mãe a chamava, aumentava. A aliança entre os coletores da costa e dos agricultores da região dos vales era muito importante, o casal tinha plena consciência disso. Contudo, nesses momentos o que importava era o amor entre os dois. Oti sempre olhava Sid nos olhos e dizia coisas que nem ele mesmo entendia, era o amor falando mais alto. Em quatro semanas o acordo entre os povos seria selado com o sacrifício da primeira criança gerada pelos amantes, esse era o procedimento padrão para que os espíritos das árvores ao norte permitissem bom tempo, colheitas proveitosas e achados preciosos que pod...

a menina e o cachorro

    Ariana sempre passava por aquele caminho nas manhãs de domingo, sempre sozinha. Sua mãe pedia que ela buscasse pão e ela gostava de olhar para as árvores grandiosas que ladeavam a estrada de terra. Ela tinha oito anos e morava com sua família em um bairro residencial de uma cidade pequena. As pessoas ali conheciam seus pais e todos amavam a companhia da menina, especialmente por sempre estar alegre e cheia de curiosidade pelas coisas que via.   O dia estava quente e ainda lembrava o verão que havia terminado há duas semanas, algo comum para o início de Abril. As pessoas que passavam cumprimentavam a menina, que seguia sorrindo e cantarolando uma música que costumava ouvir na escola com sua professora. No meio do caminho, existia uma rua que dava para uma propriedade abandonada e a menina tinha medo daquele lugar. O mato crescido dava a impressão de que coisas se escondiam e isso era o suficiente para fazer com que Ariana não se aproximasse. Ela sempre parava para admi...

surto

É como uma onda que queima por dentro Uma confusão de sentimentos Ardor que queima a mente Que deixa o pensar maltratado Expressões desoladas se instalam O marejar se inicia nos olhos Mas o calor que emana das lágrimas Não é igual ao do triste toque Extremo e irracional Montanha russa de estados Calafrios de ódio e dúvidas Repetições de coisas sem sentido Questionamentos então tomam conta  Todos eles sem nenhuma concretude Baseiam-se no momento então Se misturam com um ácido azedume Depois tudo diminui o tom Até as rimas voltam a aparecer O choro ainda vem aos olhos Mas até ele não quer mais ser O sentir continua ali guardado Em tons escuros e desdém disfarçado Medindo por medo o modo como fala Parece que agora estou novamente controlado.

cacto em vaso de rua

   Eu não sei bem como cheguei aqui e há quanto tempo vivo nesse lugar. O sol sempre aparece muito cedo e quando vem a noite eu vejo a lua. É um lugar bem movimentado, sempre tem muita gente passando. Pessoas de todos os tipos, umas menores, bem pequenas, e outras bem grandes. Cada um com seu jeito de andar, expressão  e intenção. Meu objetivo de vida é somente um, o de sobreviver. Eu aproveito cada segundo como uma oportunidade para me manter viva. Fico imaginando se esses que passam aqui também têm essas preocupações. Se eles precisam correr atrás da comida, prender o almoço, se proteger do frio...muitas são as coisas que passam na minha cabeça.     Hoje foi uma dia muito especial, pois um desses pequeninos olhou pra mim, ou pareceu que olhou. Os pelos dele eram todos enroladinhos na cabeça e seu rosto redondo e alegre. Eu sabia que ele sorria por causa de mim, isso me deixou muito feliz. Não é todo dia que nós somos observados fazendo o que costumamos fa...

whatever

I once had a lot to tell you But not anymore Words are gone for good And I don't care You had me coming and going But now I'm far from where I stood I just can't take it anymore I'm so far gone You couldn't see But I was here all the time I'm still here But you still cannot see Now, my mouth is closed And my ears pretend that they can't hear you I wish we had something to call ours But even that is not important anymore I'm just letting go.

so far gone

I wish there were tears rolling down But they're gone So far gone I wish I had a lake full of my tears But they're gone So far gone A lake where I could swin and feel again But there's no water I'm full of ashes I wish that the wind would blow on the inside But it's a desert I wish I could cry But I can't cry anymore

incompleto

Cirandas em torno de mim Papéis que caem em voltas Explosão comum em festim Colore, encobre, recorta Pedaços de intenso viver Pulsando embaixo da pele Movimentos de dado prazer Extremos, constantes, entregues Olhares desejosos de algo Encontros de espaços então Trazendo fôlegos novos Marcando, fluindo, em ação Momentos de força suave Respeito ao próximo imediato O culto ao que vê em sua frente Desvelando assim o inato Camadas desfolham facilmente Estágios em processos contínuos Chegando ao tempo final Sorrindo com o sabor repentino Disjunção que procede adeus Testamentos de palavras sem som

visões

  Lua acordou naquele dia com uma sensação de desconforto comum ao clima quente. Para ela o verão era a pior estação do ano, com suas enchentes distritais e o calor infernal que matava. Mais uma vez a noite havia sido repleta de pesadelos curtos onde o rosto de sua irmã desparecida passava em flashs diante dos seus olhos. Sentada na cama, Lua olhava ao redor pensando como aquele lugar a deprimia; era um “muquifo” como os antigos diziam. O apartamento em que vivia era localizado em um dos prédios com unidades funcionais construídas pelo governo, o espaço de vinte metros quadrados era apertado, mas era isso ou viver em um cubículo de baixa densidade perto das ruas do centro da cidade baixa. Ela preferia sua unidade funcional. Lua trabalhava como policial havia cinco anos e desde seus 22, sua vida se resumia em correr atrás de traficantes de drogas sintéticas eletrônicas e arrastar cada um deles para a execução humanitária, essa era sua especialidade. Ela ainda não sabia se queria...